23 de jul de 2011

Felicidade

Isso de a gente morar longe da família e dos amigos nos dá tempo pra pensar em várias coisas. Uma delas é a questão da felicidade, algo que nos é passado como um bem tão precioso que pode ser comparado à metáfora do pote de ouro no fim do arco-íris, que suscita uma busca eterna. Mas já paramos pra pensar que a felicidade não é esta promessa num horizonte que só faz se distanciar à medida que tentamos nos aproximar dele?

No meu último dia de curso de francês, ao chegar na sala, o professor nos incumbe da seguinte tarefa: ler dois artigos e redigir uma carta à revista onde eles teriam sido publicados. A tarefa parecia simples, já tinha realizado em ocasião da prova que tive de fazer pra ter acesso à universidade, conhecia a forma do texto a ser produzido, restava conhecer o conteúdo dos artigos e dar forma às ideias. Tarefa nada simples, já que o assunto abordado era exatamente a felicidade. Me envolvi de tal forma com a tarefa que, mesmo após mais de dois meses do dia de sua realização, o tema não me sai da cabeça, faltando só ocasião pra tentar organizar um pouco melhor algumas das ideias que surgiram à partir de então.

Breve resumo da ópera: os textos abordam conclusões de pesquisas tanto no campo da economia quanto no campo da medicina e psiquiatria que tem como principal ponto de análise a felicidade. O que mais me chamou atenção, no entanto, foi o fato de uma das pesquisas aponta-la como “contagiosa”. Neste caso, uma epidemia de felicidade seria muito mais agradável que uma de gripe suína, né? Só que o artigo se limitou a informar que a felicidade é contagiosa num raio de 1,5km de distância de seu epicentro, sendo que a taxa de contaminação tende a reduzir além deste ponto, e não existe contaminação no ambiente de trabalho.

Ora, os autores do estudo iniciado há quase vinte anos não deixaram de apontar os meios de comunicação cada vez mais diversificados como uma forma de propagação, o que não havia sido mencionado no artigo da revista. E este foi meu ponto de incômodo e de partida pra reflexão também, já que me vejo nesta situação, de compartilhar com minha família e amigos conquistas pessoais que elevam o fator felicidade, e não estamos num raio de 1,5km, ou de 15km, mas a quase 9 mil quilômetros de distância. Empiricamente falando, a internet encurtou uma distância de 15 horas de voo, me permitiu ver os primeiros passos da nossa sobrinha, reencontrar colegas e restabelecer contatos perdidos há tempos, ou matar saudade do Yoshi, meu cachorro que ficou no Brasil.

Conversando com Yoshi via MSN. Ele lambeu o monitor do notebook.

Claro que nada disso substitui um abraço de aniversário, um beijo de bom dia, um aperto de mão ao se conhecer alguém. Não dá pra enxugar uma lágrima de tristeza ou decepção por email ou MSN, nem fazer um brinde tradicional via Skype. Quando alguém que amamos adoece, mesmo se não pudéssemos fazer nada estando perto, de longe não dá pra mandar um abraço como anexo de email. Mas dá pra amenizar bastante a saudade, e mostrar que estamos sim pensando nessas pessoas, que ficamos felizes com suas conquistas, chateados com as decepções, revoltados com as injustiças.

Fico feliz de poder participar remotamente desses momentos com minha família e amigos, e saber que tal como um vírus chato que pode apagar tudo do nosso HD, podemos também espalhar coisas boas pela rede. E isso graças às ferramentas online de que dispomos hoje, e que meu avô, do alto dos seus 83 anos, ainda se impressiona em ver, dizendo que quando era garoto e assistia Flash Gordon, ficava imaginando como seria utilizar um comunicador igual ao dele. Pelo MSN ou Skype, ele vê as netas que estão na Europa. Hoje meu avô é o Flash Gordon.

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