12 de fev de 2012

A saúde vai bem?


O post é longo, mas como com saúde a gente não brinca, vale tirar um tempinho pra ler e entender como funcionam as coisas por aqui, nunca se sabe quando nem onde podemos precisar né?

Tem determinadas coisas que envolvem uma viagem de turismo ou estudos que só pensamos quando precisamos delas, não é? Pois bem, quando nos mudamos pra cá, como se tratava de um processo de transferência profissional do marido, saimos do Brasil com seguro de saúde que nos garante cobertura internacional em caso de imprevistos, até que nossa situação junto ao órgão competente na França (Assurance Maladie) fosse regularizada (precisamos de apresentar três contra-cheques do marido, além de certidões de nascimento (datando de menos de 3 meses, porque o estado civil é alterado nesta certidão), casamento, comprovante de residência e dados bancários (já explico o porquê deste último).

Neste meio tempo precisei ir ao médico pedir um atestado de saúde pra me inscrever numa prova de corrida aqui em Aix (todas as provas de corrida exigem ou a apresentação de atestado médico de saúde que especifique a aptidão pra corrida ou de um comprovante de afiliação à um clube de corrida que seja, por sua vez, afiliado à uma federação. No caso de qualquer outro esporte é a mesma história: atestado de saúde ou comprovante de afiliação), e pra isso procurei um médico que fosse conveniado ao seguro de saúde internacional, e pra minha sorte encontrei uma médica perto da minha casa, e um dos nossos amigos já tinha consultado com ela, o que dá um pouco mais de tranquilidade, principalmente quando estamos em terras estrangeiras e, bem, não falamos quase nada o idioma.

Cheguei à consulta e expliquei à médica, numa mistura de francês e inglês, o motivo da mesma, e ela então fez a anamnese mais completa que me lembro ter feito (no Brasil meus médicos me conhecem desde sempre, ou por serem da família - tios e primos - ou por terem me acompanhado desde que eu estava na barriga da minha mãe). Fiz o exame e sai de lá com meu atestado, pagando 23 euros pela consulta, e foi então que descobri a primeira diferença em relação ao Brasil: aqui pagamos pela consulta, mesmo tendo plano de saúde, e recebemos o reembolso depois (explico mais à frente como funciona). Mas este primeiro contato com o sistema de saúde francês não me ensinou nada sobre seu real funcionamento, o que só fui aprender quando tive o infeliz acidente de ski.

Quando cai na estação as despesas com socorro na pista e transporte ao posto médico foram cobertas pelo seguro de ski, e fica a dica: vai esquiar? Pegue a tarifa que inclua seguro, SEMPRE! No meu caso, a ambulância andou uns 500 metros, o que custaria cerca de 400 euros! Se o acidente fosse no alto da estação por que não tentei? onde o acesso é difícil e só pode ser feito por helicóptero, a "brincadeira" do resgate ficaria em torno dos 2000 euros! Nessa ocasião nossa situação já estava mais ou menos regularizada na Assurance Maladie (o sistema público de saúde francês) e no plano de saúde complementar ("mutuelle", que dependendo do tipo de contrato assume o restante das despesas não cobertas pelo governo) mas ainda não tinhamos recebido nosso cartão de usuários (Carte Vitale), que facilita todas as transações e contém nossos dados médicos num chip. O médico que me atendeu preencheu alguns formulários pra que eu pudesse pedir o reembolso, e disse pra eu consultar um ortopedista em 10 dias. 

E foi durante a consulta com o ortopedista que comecei a entender como funciona o sistema: ele me perguntou quem era meu "médecin traitant" (literalmente, médico tratante, os clínicos gerais que escolhemos como nosso médico de referência) e dei o nome da primeira médica que consultei aqui, porque ela é clínica geral. Ele fez uma carta pra ela relatando meu quadro, me encaminhou pra fisioterapia e marcou retorno pra dali à um mês. Apresentei meu cartão de saúde (que chegou nesse meio tempo entre o acidente e a consulta), paguei e fui reembolsada dias depois (por isso os dados bancários, o reembolso é feito direito na nossa conta). 

Tão logo comecei a fisioterapia perguntei como funciona o sistema de saúde francês, e a fisioterapeuta me explicou o seguinte:
- Escolhemos nosso clínico geral, assinamos um termo de escolha que encaminhamos ao nosso posto de Assurance Maladie (nosso domicílio determina qual é o posto);
- Sempre que adoecemos, antes de ir ao especialista, devemos passar pelo clínico geral, que vai fazer o exame e então avaliar a necessidade de nos encaminhar ao especialista - isso porque uma consulta com o clínico custa 23€ (16€ são reembolsados pela Assurance Maladie, o restante pelo seguro de saúde complementar, de acordo com a cobertura do contrato) enquanto no especialista a consulta é 65€ (6€ reembolsados pelo governo se a consulta não foi indicada pelo seu clínico geral; se for este o caso, o reembolso é quase integral, o seguro complementar cobre o restante). 

A fisioterapeuta me explicou que esse percurso generalista → especialista foi uma medida adota pelo  governo para reduzir os custos elevados com os médicos especialistas, já que a maioria das pessoas não consultava o clínico geral (que também é médico, gente!) e ia direto no especialista, sendo que na maioria dos casos o problema poderia ser resolvido direto no clínico. Depois dessa explicação, voltei à primeira médica que consultei, entreguei a carta do ortopedista, assinei o termo de escolha com ela e então ela fez a carta de encaminhamento pro ortopedista, porque expliquei que eu não sabia como funcionava tudo isso por aqui. 

Então, se vai viajar, faça o seguro de saúde de viagem, porque caso adoeça ou tenha uma emergência, o reembolso das despesas é feito por esse seguro. Aqui não dá pra comprar remédio sem receita médica (nem no Brasil!), então viaje com os contatos dos médicos conveniados ao seguro que atendem na cidade/país de destino. Aqui na França os médicos nos dão um formulário pra pedido de reembolso junto à Assurance Maladie no caso de não estarmos em posse da Carte Vitale ou de não sermos residentes aqui (foi o caso do meu sogro, que quando veio aqui e precisou consultar um médico, que preencheu o formulário pra que ele pudesse pedir reembolso das despesas médicas junto ao seguro saúde de viagem). Como diz o velho ditado "prevenir é melhor que remediar"! 
  



2 comentários:

  1. Muito informativo e importante este post Natalia.
    Como eu estou como "conjoint" da minha esposa, eu precisei passar pelo o que os franceses chamam de jornada cívica obrigatória, você não passou por isso também?
    Lá, todo o sistema de saúde e outras coisas importantes me foi explicado por alguém "oficial". Quando estamos fora de casa e da nossa cultura, toda essa logística é bem complicada.

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  2. No meu caso essa jornada era optativa, e como me tinham dito que era sobre questões culturais e aspectos históricos, que eu já tinha estudado no curso de francês, optei por não assistir, e fiz mesmo só a visita médica no OFII, mas antes eles explicam várias questões práticas, direitos e deveres, mas não me lembro de terem tratado sobre a questão do funcionamento do sistema de saúde. De qualquer forma o governo orienta com relação à várias questões, e oferece inclusive os primeiros cursos de francês ao imigrante que não tenha conhecimento do idioma, o que acho interessante porque viabiliza a integração.
    Com relação à questão da saúde em si, acho que é sempre essencial prevenir todo tipo de eventualidade, principalmente em se tratanto de uma viagem de turismo, já que ninguém sabe se pode adoecer longe de casa, né!

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