25 de jun de 2013

Para concluir...

"Bom dia, sou estudante no segundo ano de mestrado de psicologia e procuro um estágio."
"Não temos vagas pra estágios no segundo ano de mestrado" ou "Não aceitamos estudantes de segundo ano" foram das respostas mais comuns com as quais me deparei na busca pra um estágio de 400 horas de duração pra conclusão do mestrado, em maio do ano passado. Até que consigo enviar um currículo. E outro, e mais um terceiro. Três entrevistas, selecionada pra dois lugares, (sendo que no terceiro eu deveria entrar em contato pois o psicólogo poderia aceitar duas estagiárias, mas acabei deixando de lado), um deles um grande hospital em Marseille, o outro num dos setores do hospital psiquiátrico de Aix, mas cujo serviço fica em outra cidade. Escolhi o último. A entrevista, eu fiz exatamente depois de ter visitado a gruta de Maria Madalena, visita que falei neste post.


"Bonjour, je suis étudiante en master 2 de psychologie et cherche un stage."
"Nous ne prenons pas de stagiaire" ou "Nous ne prenons pas de stagiaire en deuxième année", cette dernière étant du jamais entendu, car quand j'étais en première année on me disait sans cesse qu'ils ne prenaient que de stagiaires en deuxième année. Bref. J'ai été confrontée, avec mes collègues, a une galère pour trouver un stage de 400 heures pour conclure de master, et j'ai démarré mes recherches au mois de mai. Il y avait même des institutions qui avaient déjà un stagiaire pour l'année d'après, ce qui a scotchée. Jusqu'au jour où on accepte que j'envoie un CV, puis un autre, et encore un troisième. Trois entretiens, acceptée pour deux lieux, étant donné que pour le troisième le psy avait la possibilité d'accueillir deux stagiaires, mais j'ai laissé tombé. Entre l'hôpital général à Marseille et l'hôpital psychiatrique à Aix, j'ai choisi ce dernier, sachant que le stage se déroulerai dans un secteur dont le service n'est pas à côté de chez moi, mais dans une autre ville. Le premier entretien pour le stage, je l'ai fait juste après avoir amené ma mère et ma belle-mère pour une promenade à la Sainte-Baume que je parle dans cette article.

O trabalho, em psiquiatria infantil, me encheu de perguntas e anseios, mas cada dia de estágio era um dia de descobertas riquíssimas. As 400 horas obrigatórias viaram 600 horas quando me pediram pra extender minha permanência até o fim de junho, pra que eu pudesse participar do encerramento dos grupos aos quais observei e participei. Eu não via o dia passar. Minhas sextas feiras eram "livres", mas eu tinha reuniões com minha supervisora e aos poucos se desenharam a monografia de pesquisa e o relatório de estágio, cada um com seu tema saído da minha experiência em estágio. Porque, pra validar cada ano do mestrado, tivemos de redigir uma monografia pra cada ano e um relatório igualmente pra cada ano. Mas no segundo ano, o ano decisivo quando o título de psicólogo nos é conferido, o relatório de estágio também é defendido, desta vez com a presença do supervisor de campo no júri, além de dois professores com quem trabalhamos ao longo do ano. 

Le stage, en service de pédopsychiatrie, a fait émerger des questionnements, mais aussi des réserves, mais chaque journée de travail était une journée pleine de découvertes. Les 400 heures obligatoires ont vite devenus 600 heures quand il était question que je prolonge ma présence jusqu'à fin juin, pour participer aux fins de prises en charge. La journée n'était jamais assez longue. J'avais les vendredis libres pour travailler la théorie, pour rencontrer ma référente, et petit à petit les sujets du mémoire et du rapport de stage se dessinaient. 

O mais difícil do trabalho não foi encontrar a psicose infantil ou o autismo. Não foram as tensões nas reuniões, nem as dificuldades encontradas pela equipe. Minha integração nesta, aliás, se deu de forma quase natural, e o fato de eu ser estrangeira não foi questionado, nem evocado como dificuldade, ao contrário. Mas a parte escrita era o que eu mais temia. Confrontar a demanda universitária, uma última vez, uma decisiva confrontação. Escrever em francês me foi difícil, por vezes doloroso. Mas escrevi. Relatar minha clínica foi um exercício complicado, mas ao mesmo tempo prazeroso. Eu escrevi pelo paciente escolhido pro estudo de caso, mas também pra equipe. Porque meu lugar enquanto estagiária é efêmero, e nada mais justo tirar proveito desse exercício universitário pra dar um retorno à equipe com quem trabalhei. Tarde da noite era quando eu encontrava minhas palavras, e quando pude dar forma ao conteúdo que tomou conta de mim ao longo desse ano. 

Le plus dure dans ce travail n'était pas le fait de me retrouver à confronter la psychose infantile ou l'autisme. Ni les tensions qui éventuellement pourraient se faire sentir pendant les réunions, ni les difficultés rencontrées par l'équipe. Mon intégration dans celle-ci s'est faite presque naturellement, d'ailleurs, et le fait que je sois étrangère n'a pas posé problème, au contraire, celle a été vu comme une richesse. Mais la partie du travail écrit était celle que je redoutais le plus. Confronter la demande universitaire, une dernière fois, la confrontation décisive. Ecrire en français ne va pas de soi quand on est étranger, et j'avoue que l'écriture m'a été difficile, voire douloureuse. Ecrire sur ma clinique était un exercice à la fois compliqué et passionnant. J'ai profité de cette exercice pour rendre compte aussi à l'équipe du travail fait avec le patient choisi pour mon étude de cas. Le travail d'écriture se passait dans le silence de la nuit, quand j'arrivais à donner forme au contenu qui m'a habité tout au long de cette année. 

Na manhã deste 25 de junho de 2013, eu defendi minha prática clínica. As palavras sairam meio engasgadas por vezes, na hora H fui dominada por uma ansiedade crescente que me apertava o peito. Meia hora depois, eu recebia meu título de psicóloga. Faltava a monografia de pesquisa a ser defendida, essa que foi a mais difícil das tarefas que tive, porque foi a de maior complexidade pra ganhar forma. Igualmente defendida. De repente, os professores viraram colegas. A última barreira caiu. E com ela, as lágrimas que eu segurei ao longo desse ano (incrivelmente, quem me conhece sabe o quanto sou chorona). Por que eu me dei todo esse trabalho de validar um diploma, enquanto poderia simplesmente ter me reorientado por aqui? Por que atravessar todo o estresse de uma formação puxada, sabendo das dificuldades às quais me confrontaria depois? Pelo mesmo motivo que me levou a escolher essa profissão: as pessoas. Foi difícil? Extremamente. Mas todos os meus referenciais mudaram depois que encontrei as crianças em psiquiatria. Foi à elas que agradeci, pessoalmente, no dia mais difícil do meu estágio: o último dia. A vida de estudante com suas exigências ficou pra trás, nos muros do campus da faculdade, em Marseille. Os mestres viraram colegas ao assinarem os papéis que conferem o título. A formação, essa, é vitalícia. E os mestres, desta vez, serão os pacientes.

Le 25 juin 2013 au matin, j'ai soutenu ma pratique clinique. Les paroles avaient du mal à sortir bien comme il fallait à cause de l'angoisse qui m'envahissait. Une demi heure après, j'avais mon titre de psychologue. Il ne manquait plus que la soutenance du mémoire, qui a eu lieu dans l'après-midi, la tâche la plus dure cette année puisque ce travail m'a été plus difficile à écrire. Mais je l'ai fait, et il a été également validé. D'un coup, les profs en face de moi étaient devenus collègues. La dernière barrière été franchie. Et là, les larmes que j'ai retenu au long de cette dure année ont coulées, chaudes, avec beaucoup d'émotion, ce qui n'est pas évident pour moi, vue que je pleure facilement, mais ce n'était pas le cas cette année. Le poids du monde était soulevé de mon dos. Pourquoi ai-je choisi de suivre tout ce parcours pour valider mon diplôme (je suis déjà psychologue au Brésil, le parcours en France s'inscrit dans la validation de ce titre) ? Pourquoi faire face aux contraintes universitaires, au stress des longues études, tout en étant consciente des difficultés rencontrés par la suite ? Pour la même raison qui m'a fait  choisir ce métier : le sujet, les personnes. C'était difficile, certes, mais tous me référentiels et valeurs étaient bouleversés après cette expérience en pédopsychiatrie. J'ai remercié à chacun des petits patients rencontrés, en personne, avant de les quitter dans celle qui a été la plus dure journée de mon stage : la dernière. La vie d'étudiant, avec ses exigences et contraintes, est derrière moi, dans les murs du campus de l'université, à Marseille. Les maîtres sont devenus des collègues de métier lorsqu'ils ont signé l'attestation qui confère le titre. La formation, par contre, reste à la vie. Mais les maîtres, cette fois-ci, seront les patients.


16 comentários:

  1. Show Natalia!!

    Parabéns, são sacrifícios, quedas e depois levantar que nos faz crescer e ver que valeu a pena.

    Sucesso agora e muita força para continuar este duro e gratificante trabalho.

    @GusBelli

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    1. Obrigada, Gustavo!

      O mais dificil do trabalho é o fim, a separação. Mas também faz parte :)

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  2. Parabéns Natália!! Orgulho de você!!! Sei o quanto é difícil defender uma tese em nossa língua, imagino em outra!! Grande conquista, merecida!! Imaginei cada passo seu lendo seu blog!! Que exemplo! Minhas mais sinceras congratulações!!!

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  3. Parabéns, Natti! Adorei seu texto. Que experiências incríveis! Admirável sua atitude. Que você colha os frutos, um a um... E que sejam bem saborosos. Beijos, Júlia

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    1. Obrigada, Julinha!
      A sensação que tenho é de que o tempo voou nesses dois anos, mas quando paro pra pensar em cada dia de estagio, cada hora dedicada a entender teoria, a escrever e trabalhar os assuntos vistos, tenho impressão de que o tempo foi justo. Foi uma experiência incrivel mesmo!
      Beijos!

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  4. As batalhas mais difíceis são sempre as que dão mais prazer.
    Parabéns!
    Chapeau, chérie! ;-)

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    1. Merci, Marcie!
      Verdade, a recompensa é sempre mais valiosa quando o esforço pra conquista-la é grande!
      Beijos!

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  5. Oi Natalia!

    A gente conversou sobre os trâmites pra fazer um mestrado na França um tempo atrás. Eu ainda estou aqui, super longe desse objetivo.... Mas entrar aqui hoje e ler seu relato me deixou feliz! Bom demais ver gente (gente como a gente, rs!) conquistando as coisas que a gente sabe como é querer conquistar. Imagino o quanto tenha sido dificil. E voce foi realmente muito guerreira!

    Meus parabens! Todo sucesso e felicidade na carreira! :)

    Abraços!

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    1. Oi Raquel!

      Espero que você possa concretizar em breve seu objetivo. Hoje, o estresse passado, parece que o tempo voou, e que os dois anos passaram rapido. No fim, o mais dificil é realmente a despedida dos pacientes e das equipes com quem trabalhei, foi um ano muito intenso!

      Muito obrigada!

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  6. Oi, Natalia! Parabéns por ter conquistado seu mestrado! Vejo que ja faz quase 2 anos, mas é muito bom conhecer historias de quem conseguiu continuar os estudos aqui na França! =)
    Abraços

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  7. Oi Natália, estou agora em Aix com meu esposo e filha. Enquanto eles descansam estava lendo mais uma vez teu blog e estou adorando.. Parabéns por chegar aqui falando somente três palavras e concluir um mestrado. Somente pessoas especiais conseguem estas façanhas. Estamos adorando Aix. Queremos voltar em outra época para apreciar as campos de lavanda. Mais uma vez, parabéns. Eloisa, Fernando e Isabela - de Porto Alegre/RS.

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