25 de mar de 2017

Sete primaveras

Plateau de Valensole, junho de 2016

Sete anos se passaram desde que chegamos de mala e cuia no aeroporto Marseille Provence. Era 25 de março, como hoje, e chovia, como hoje. Início de primavera sempre chuvoso por aqui, afinal se não forem regadas, as flores não nascem. Apesar de terem se passado sete anos desde o dia que embarcamos pra valer pro lado de cá, nunca vou me esquecer dos instantes finais de despedida no saguão do aeroporto. No segundo andar do terminal de embarque do Aeroporto Intercional Tancredo Neves, o aeroporto de Confins, uma imensa parede de vidro escuro separa a área reservada pros passageiros munidos de seus cartões de embarque. A porta estava aberta esperando que entrássemos.

Estavam conosco os pais do Bernardo, minha mãe e meu irmão. Ele foi o primeiro a me abraçar forte, o primeiro que eu vi ir embora, pois tinha de voltar pro trabalho. Doeu me despedir dele, meu irmãozinho(ão), cinco anos mais novo, mas depois de uma certa idade a diferença é quase inexistente. Das coisas que mais sinto falta, o abraço dele ocupa certamente um dos primeiros lugares na lista. Depois foi a hora do abraço dos sogros, corregados de afeto. Por último, mas não menos importante, o abraço na mãe. E aquele esforço hercúleo pra segurar as lágrimas enquanto ela não continha as suas. Foi em vão, claro. E uma das coisas que aprendi nesse tempo aqui é que vez ou outra precisamos deixar a emoção transbordar. É importante dar vazão, alivia um pouco a pena, apazigua o coração.

Depois de muito tempo de “vai-não-vai”, fomos. Carregando um frio na barriga, cheia de sonhos, receios, mas em boa companhia, e isso foi essencial ao longo desse tempo. Sete anos é o tempo do vai ou racha nos relacionamentos, dizem. A crise dos sete anos. Cá estamos, há sete anos aprendendo a nos relacionar em outra cultura. Sete anos de casamento com a França. Porque entre nós dois, o casamento é mais longo, até me assusto um bocado ao pensar que este ano completaremos nove anos de casados, e quinze anos juntos (merece uma viagem de debutante, né?)

Enfim, são sete anos por aqui. Este ano vamos assistir à segunda eleição presidencial desde que chegamos. E depois às eleições legislativas. Vimos alguns capítulos tristes da história do país : atentados, intervenções militarem em conflitos, e a triste crise dos refugiados, que faz pensar no contexto das grandes guerras. Um ciclo bem triste de se testemunhar. Desde os atentados de Paris em novembro de 2015 vivemos em estado de urgência, que significa reforço no policiamento – é bem comum vermos grupos de soldados pelas ruas, em locais onde o risco potencial de atentados é significativo. Caso eles estimem necessário, podem pedir identidade para controle. Mas só vi isso acontecer uma vez, e nem estávamos em estado de urgência.

“Nossa, mas você não tem medo ?”. Não. Ainda gozo plenamente das liberdades individuais. Exerço o direito de ir e vir, inclusive sozinha, tarde da noite, caminho à pé pra casa. Foi-se o tempo em que o medo e receio me acompanhavam nessa caminhada. Foi-se o tempo que eu andava abraçada aos meus pertences, ou trancava a porta do carro antes mesmo de colocar a chave na ignição.

Piquenique na Praça da Assembleia, em Belo Horizonte

Primeiro aniversário do Victor, agosto de 2016, parque La Torse

Voltei às pistas de esqui, por uma tarde, depois de ter esquiado pela última vez com uma sementinha na barriga. Passeamos pela Normandia, fomos ao Brasil e conseguimos reunir um monte de gente querida num piquenique delicioso, pra apresentar nosso pequeno. De volta à França, passeamos bastante, fomos à praia, aproveitamos a delícia do verão. Comemoramos no parque, num piquenique simples e cercados de amigos, o primeiro ano do Victor. Levamos ele pra Sicília, pra continuar a comemoração e esticar um pouco mais o prazer de se deliciar no mar.

Favignana, na Sicília, setembro de 2016

Há pouco mais de sete anos comecei a correr, e aqui participei de algumas provas, sendo três meia-maratonas, ou seja, vinte e um quilômetros e cem metros. Prefiro escrever por extenso mesmo, porque não é um percurso curto, tampouco leve, e o treino é igualmente puxado. A última vez que corri esse percurso foi em outubro de 2016, a segunda corrida da qual participei depois que Victor nasceu. Treinei com ele, empurrando carrinho na hora da soneca dele, pelo menos três vezes por semana. Nos finais de semana, treinava sozinha, e vi a diferença de um treino empurrando um peso pra um treino livre. Foi empurrando o bebê no carrinho que cruzei a linha de chegada. E, apesar do cansaço dos 21km, quando vi Bernardo mostrando pro Victor que eu tava chegando, foi como uma injeção de ânimo. Fiquei pensando se ele estaria dormindo, ou incomodado. E ele estava lá, tranquilo com o pai e a Luna na cestinha embaixo do carrinho. A carinha dele quando me viu foi a cereja no bolo : minha corrida começava ali. Eu ficava imaginando eles me esperando depois da linha de chegada, mas dias antes tive a ideia de correr os cem metros finais com ele, que esteve comigo em boa parte dos treinos. Combinei com Bernardo, que preparou tudo, inclusive a câmera pra registrar esse momento. No dia seguinte, a médica diagnosticou uma otite nele, a primeira vez que ele fica doente, primeira de uma série depois que entrou pra creche.

Nossa primeira meia-maratona juntos, outubro de 2016

Outubro foi de longe o mês mais difícil pra mim em 2016. Victor ficou doente praticamente o mês todo, e pra completar tinha reforma em casa, o caos instalado. Tinha poeira em absolutamente tudo, e fiquei exausta. Até que no dia do meu aniversário eu tinha que ir ao aeroporto buscar a prima do Bernardo, que viria passar uns dias conosco, e pra mim ter visita é sempre uma alegria. A obra estava praticamente acabada, e eu tava muito feliz mesmo em recebê-la. Enquanto aguardava sua chegada no aeroporto, via os felizes reencontros entre parentes que não se viam há tempos. Cada abraço era uma lágrima que teimava em embaçar meus olhos. Até que chegou o momento do meu reencontro, mas não foi com a prima do Bernardo : era minha mãe chegando, e ele orquestrou tudo em uma semana. Eu tava tão exausta, que uma semana antes, na casa de amigos, tinha dito “quero minha mãããe”, entre uma dose e outra de antibiótico do bebê. Bernardo não estava lá, mas acho que entendeu meu pedido. Almocei com minha mãe no dia do meu aniversário, e isso salvou o mês de outubro de ser taxado como o pior do ano. Dois dias depois, Victor deu seus primeiros passos. Definitavemente o mês de outubro foi salvo.

Boas-vindas à primavera no parque Saint Mitre

Aprendi que não existe um voltar à rotina depois de um bebê. Existe um adaptar a rotina de antes à presença de um novo membro na família. Tudo exige uma organização um pouco diferente, mas continua sendo possível viajar com ele, sair, ir a restaurantes, passear e fazer trilhas. Tudo é questão de adaptação. E mudanças são mais que bem-vindas. Caso não pensasse assim, acho que não estaria há tanto tempo por aqui. Quando me perguntam do que mais sinto falta no Brasil, respondo simplesmente que da família e dos amigos. Mas, na verdade, o que mais sinto falta mesmo é impossível encontrar, são todas as experiências e encontros felizes que vivi, um passado legal, mas que ficou gravado em mim, e faz parte de quem eu sou hoje.



3 comentários:

  1. Natália, emoção do começo ao fim, lindo post! E você atravessando a linha de chegada empurrando o Victor no carrinho está de uma beleza indescritível! Me identifico, do começo ao fim. Beijo e fiquem bem! Denya

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ei Denya! Essa chegada com ele foi muito emocionante mesmo, vira e mexe revejo o video e ele adora se ver também! Acredita que com aquela carinha toda fofa e ele ja tava com a danada da otite?
      Beijo grande!

      Excluir
  2. Parabens pelas palavras que nos fazem entrar em suas historias e sentimentos Natalia! Foi pela identificaçao com uma momento vivido por vc que conheci seu blog e gostei muito. Sou mais uma brasileira que esta morando na provence (ha dois anos em Avignon), sou psicologa e mergulhada no processo de validação do meu diploma (foi pelo post sobre isso que encontrei sua pagina ;) ). Seria possivel conversar um pouquinho com vc pra trocar ideias? estou bastante perdida neste momento e bloqueada neste dossie (penso q mais pelo peso emocional do que burocratico). Obrigada desde ja e mais uma vez parabens!

    ResponderExcluir

Tem dúvidas, sugestões ou informações complementares? Este é seu espaço! Sua dúvida pode ser a de outros, e suas sugestões certamente ajudarão outros leitores!
Comentários sem relação ao post, links de propaganda ou conteúdo ofensivos não serão publicados.