31 de mai de 2017

Saint-Paul de Mausole, a clínica onde Van Gogh ficou internado


No fim de uma tarde ensolarada de maio de 2016, depois de um passeio pelas ruínas romanas de Glanum, um impressionante sítio arqueológico localizado nas portas da cidade de Saint-Rémy de Provence, nos dirigimos ao antigo monastério que hoje abriga uma instituição psiquiátrica de renome na região provençal: Saint Paul de Mausole. Essa foi uma visita que quis fazer durante anos, mas sempre me disse que talvez devesse esperar um momento oportuno, talvez uma visita especial, pois sempre guardo um passeio inédito pra fazer quando recebemos visitas aqui. Eu quis levar alguns hóspedes, mas a época que eles vieram o acesso ao espaço do Centro Cultural da clínica psiquiátrica Saint Paul de Mausole estava fechado para visitação. A ocasião veio então com a vinda da minha cunhada, sua primeira vez nos visitando, ela que, como eu, é psicóloga, e ainda se aventurou pelos domínios maravilhosos das artes plásticas.


O mais ilustre dos pacientes da clínica teve uma história de vida tumultuada e viveu na Provença entre 1888 e 1890, primeiro na cidade de Arles, em seguida em Saint-Rémy, internado na clínica por um ano: trata-se de Vincent Vang Goh. Foi justamente em sua cela na clínica que ele pintou meu quadro favorito, a Noite Estrelada, que era a vista que tinha da sua janela. Da Provença, Van Gogh registrou muito em seus quadros, mas o ponto mais marcante foram as cores, a luz provençal que atraiu e atrai muitos artistas à região. 

Mas a passagem do artista por aqui foi turbulenta: depois de um episódio conturbado em Arles, que culminou com a amputação da orelha, episódio que deu origem à uma série de teorias, o artista viu  o fim de seu projeto de comunidade de artistas quando um pedido de expulsão feito por moradores da cidade chegou até a mesa do prefeito. Internado primeiramente no hospital de Arles, em seguida na clínica de Saint Paul, o interesse médico em torno do caso do artista deixou registros que podem ser vistos ao longo da visita ao espaço dedicado à sua memória. Uma história de vida difícil, relações familiares complexas e um tanto conflituosas, uma carreira artística pontuada por recusas, a dita "loucura" de Van Gogh foi atribuída à inúmeras causas, orgânicas ou psíquicas, como sífilis, transtorno bipolar ou ainda esquizofrenia, intoxicação em decorrência de tratamentos. 

Fato é que a posteridade fez justiça à sua obra, rendendo ao artista uma fama e reconhecimento que ele não pode gozar em vida. Vincent, filho de Vincent, irmão do defunto Vincent, tio de Vincent, quem fez história foi aquele marcado pela perda de uma orelha, por um caminho sombrio diante das telas até encontrar nos arredores do mediterrâneo a luz que apeteceria mais tarde aos admiradores de sua obra. Pra mim, a visita ao lugar onde o artista se recolheu ou foi compulsoriamente recolhido foi tão marcante e tão emocionante quanto o momento que contemplei pela primeira vez suas criações: ver tão de perto a intensidade das pinceladas, as misturas de cores e obras tão apreciadas despertou em mim uma emoção indescritível, que pude reviver à medida que caminhava pelos corredores, salas, jardins e claustro do monastério. Sem dúvidas uma visita a ser feita - com bônus floral ao longo do ano, culminando com os campos de lavanda nos meses de julho e agosto.

Informações práticas:
Funcionamento: de 1 de outubro a 31 de março : 10h15 às 17h15 (última entranda às 16h30)
de 1 de abril a 30 setembro : 9h30 às 18h45 (última entrada às 18h30)

Tarifas 2017:
Individual : 5€
Reduzida: 3,50€ (grupos, Saint-Rémy Pass)













Um comentário:

  1. Gostei bastante! Espero um dia que eu possa visitar esse lugar tão marcante. Só uma correção: Noite Estrelada foi pintada a partir da memória, e não a partir da vista que ele tinha quando olhava para a janela.

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