Arles e o legado romano na Provença

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Sabe quando um lugar é perto e você se diz sempre que pode ir qualquer dia conhecer, mas acaba deixando pra depois, e depois… É meu caso com Arles, que fica a 75km de Aix-en-Provence, ou menos de uma hora de carro pela autoestrada. Sempre que eu pensava em visitar a cidade acabava que surgia alguma coisa pra fazer, e Arles era procrastinada a cada tentativa de visita, falha que foi devidamente remediada graças à presença de visita em casa. O plano inicial era irmos pela manhã à Saintes-Maries-de-la-Mer, e depois de uma voltinha pela cidade iríamos à Arles, já que um é do lado da outra. Acontece que o sono nos privou da primeira parte do passeio (e o dia nublado também não inspirou muito a nos levar à beira-mar) e acabamos seguindo direto pra Arles.

Saindo de Aix-en-Provence existem duas opções de trajeto: auto-estrada A8 até Salon-de-Provence, e A54 até Saint-Martin-de-Crau (pedágio: 4,20€), que vira N113 até Arles, trajeto que tem cerca de 75km dependendo do ponto de partida, ou então seguir a A7 em direção à Marseille, pegar a A55 Fos-Martigues e seguir pela N568 a partir de Martigues até Arles, trajeto com 92km mas que passa pela belíssima planície da Camargue, região do delta do rio Ródano, segundo maior do mediterrâneo, conhecida pela presença de cavalos selvagens, touros, sal e plantações de arroz, além de ter sua área natural protegida Parque Natural Regional da Camargue, que abriga diversas espécies de passáros no parque ornitológico. Nas proximidades de Fos-sur-Mer, à direita no sentido Fos-Arles, é possível ver alguns flamingos! Nós optamos pelo segundo itinerário porque gostamos da paisagem que podemos ver quando atravessamos a Camargue, a imensa planície de um lado, a cadeia dos Alpilles de outro, com o vilarejo de Les Baux-de-Provence tímido no alto de sua colina ao longe, visão da qual somos privados quando optamos pelo itinerário que segue somente pela auto-estrada, primeiro porque o percurso não é necessariamente o mesmo, segundo porque temos a tendência a ir mais rápido (130km/h contra 110km/h na nacional) e eu, quando dirijo, vejo mais asfalto que paisagem na auto-estrada, enquanto na nacional a paisagem predomina. Chegando em Arles pega a saída que indica “Arles Centre” e siga as indicações até encontrar um estacionamento, não muito longe do escritório de informações turísticas. Estacione e venha comigo passear no coração dessa cidade onde os estilos provençal e romano coabitam harmoniosamente…

Vale à pena incluir Arles no roteiro?

Minha resposta é sim, vale. A cidade é classificada como de “Arte e História”, e seus monumentos foram inscritos no patrimônio mundial da humanidade pela Unesco desde 1981. Principal cidade da região da Camargue, Arles fica às margens do rio Ródano, que nasce na Suíça e chega na França passando pelo lago de Genebra, desce por Lyon até desembocar no mediterrâneo, por isso o departamento onde moramos leva o nome de “Bouches-du-Rhône”, literalmente Desembocaduras do Ródano.

Essa localização geográfica da cidade entre a Espanha e a Itália, além da navegabilidade do Ródano fizeram de Arles um ponto estratégico durante o império romano. Em pouco tempo é possível visitar seu centro histórico, com o Anfiteatro romano no estilo do Coliseu, também conhecido como Arenas por serem palco das controversas “corridas” – o sul da França, principalmente Nîmes, Saintes-Maries-de-la-Mer e Arles mantêm a tradição de corridas de touro – e logo ao lado fica o Teatro Antigo.

Não muito longe dos dois monumentos mais conhecidos da cidade fica a Praça da Prefeitura (Hôtel de Ville), que tem uma particularidade: a torre do relógio não é como vemos nas demais cidades da França, sendo aqui uma referência ao templo de Marte, o deus da guerra, que é representado no alto do monumento segurando a bandeira francesa. Deixe-se perder pelas ruelas do centro, e surpreenda-se com as placas que fazem referência aos quadros de Van Gogh, como o café La nuit, rebatizado de café Van Gogh. 

Algumas curiosidades sobre Arles

– é o município com maior superfície da França, são quase 760km² – Paris tem superfície de 105km²;
– recebe todos os anos o maior encontro de fotografia do país, “Les Rencontres Photographiques d’Arles“, e onde fica também a Ecole Nationale Supérieure de la Photographie, o que lhe conferiu o título de capital francesa da fotografia;
Vincent Van Gogh morou durante um ano na cidade e o incidente da orelha cortada aconteceu por lá, e foi também durante esse ano que ele teve seu período mais produtivo, tendo realizado cerca de 300 obras. Após o episódio da orelha, alguns habitantes de Arles se mobilizaram para pedir a expulsão do artista da cidade e sua internação, que aconteceu na clínica psiquiátrica de Saint-Rémy-de-Provence.

Arles romana

Arles tem um imenso patrimônio romano a ser descoberto, a começar pela dobradinha Teatro Antigo e Anfiteatro romano. O teatro antigo ainda preservar uma parte de sua formação original, mas as intermitências do tempo e contextos históricos se mostram presentes. Ainda assim, é possível ter uma dimensão da imponência do lugar que outrora serviu de palco para o entretenimento cultural local. Também é possível visualizar a estrutura original em maquete que se encontra no Museu de Arles antiga.

A visita ao Anfiteatro foi a mais impressionante, pois além de nos encontrarmos no interior de um mini coliseu romano, ainda temos uma vista magnífica da região entorno, com o relevo da cadeia dos Alpilles contornando o horizonte, e a abadia de Montmajour ao fundo.

Funcionamento: diariamente de 9h às 19h (maio à setembro)

Tarifa: 9€ (bilhete combinado anfiteatro e teatro antigo)

 

Museu Departamental de Arles Antiga

O edifício que abriga a antiguidade arlesiana é bem moderno e encontra-se à margem do rio Ródano, de onde muitas das peças ali expostas foram retiradas – um hábito antigo, algo se quebrava, as pessoas jogavam no rio. Logo na parte externa em frente ao museu podemos perceber a riqueza encontrada na região: o sítio arqueológico foi integrado à construção, onde podemos ver peças de uso doméstico como pratos, jarras, copos quebrados que tiveram como destino o fundo do rio e de lá foram resgatadas por mergulhadores, trabalho importante que foi representado em maquete. Vestígios da arquitetura antiga, como colunas e mosaicos também fazem parte do acervo e o trabalho de restauração é constante. Um novo pavilhão está sendo construído para abrigar o acervo de navegação, e o testemunho histórico de como funcionava a economia, a indústria e até a medicina da época chega até nós através das peças expostas no museu. Uma parte interessante do ponto de vista do surgimento do cristianismo é comparar as representações presentes nos sarcófagos, indo de nenhuma representação aos símbolos cristãos, passando por representações que davam indícios somente aos cristão da época, até chegar nas representações claras de Jesus com os apóstolos. Como sabiamente apontou Victor Hugo, quando não podíamos imprimir nossa história pra contar em larga escala, o fizemos através da arquitetura e escultura.
Informações práticas sobre o museu:
– fechado às terças-feiras e nos dias 01/01, 01/05, 01/11 e 25/12. Entrada gratuita todo primeiro domingo do mês. Bilhete adulto 8€, tarifa reduzida 5€. Horário de funcionamento: 10h às 18h.

 

 

13 Responses

  1. Michel

    Oi Natalia! Conheço bem essa coisas de deixar pra depois, e depois… 🙂 importante é irmos cedo ou tarde! E ainda bem que você foi e compartilhou tudo aqui, achei muito legal! A Europa é tão rica de história e temos mesmo que aproveitar tudo!
    Paz! Michel

  2. Celinha

    Natalia,
    Muito bacana ver a cidade com seus olhos e suas lentes. E a vontade de voltar para Aix e explorar o que falta só aumenta… Beijos.

  3. Anônimo

    Querida Natalia, que bom saber de sua visita a Arles.
    Mais uma vez tenho que destacar que gosto muito das suas postagens, enquanto leio sobre as suas viagens a sensação que eu tenho é que estamos conversando tranquilamente numa praça de Marseille, numa rua de Aix,num bristrô em Paris. Uma pessoa querida compartilhando com os amigos as suas experiências nesse "mundão de Deus".
    bjs!!!

    Leonor

  4. Lillian Brandão

    Oi Natalia,

    Quanta foto linda no seu post! Fiquei com muita vontade de conhecer a capital francesa da fotografia! Amo fotografia! 🙂

    Abraços,
    Lillian.

  5. Natalia Itabayana Junqueira de Mattos

    Ei Lilian, que honra receber elogios fotograficos seus!! Olha, se puder visitar Arles programe a vinda pra época do festival, entre julho e setembro, a programação é super bacana e tem inclusive estagios, pretendo ir ano que vem e tentar participar de pelo menos um, aprender nunca é demais, né?
    Obrigada pela visita!!
    Abraços!

  6. Anônimo

    Oi, tudo bem? Vamos pra Aix en Provence em Julho e gostaria de saber algumas coisas: como se paga o pedágio? Há cobradores ou é self service? em julho é uma boa alugarmos um carro? Há facilidade para encontrar estacionamento? Agradeceria muito se nos ajudasse.

    Obrigada,

    Carina

  7. Natalia Itabayana Junqueira de Mattos

    Oi Carina!
    Nas cabines de pedágio você tem as duas opções durante o dia, o auto atendimento com cartão de crédito ou dinheiro, e a cabine com os atendentes, ambas sinalizadas (símbolo de CB – carta bancária, e um homenzinho pro atendente). Acho válido alugarem um carro em julho, o aluguel pode ser feito nas agências no Aeroporto Marseille Provence – lembro da Hertz e Europcar – e recomendo terem a carteira de habilitação internacional.
    Se tiver mais dúvidas você pode ler o post sobre Dirigir na França, o primeiro da listinha de posts mais lidos, que tem informações sobre os pedágio e dicas sobre a sinalização, ou entrar em contato via email.
    Abraços!

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