Como ser psicólogo na França: minha experiência

Esta é minha trajetória para validar meu diploma brasileiro de psicologia e ter o direito de exercer enquanto psicóloga clínica na França. Estas informações se aplicam unicamente para a psicologia com habilitação clínica, por se tratar de profissão com regulamentação específica. De forma alguma este é um guia definitivo de como ser psicólogo na França, mas um relato pessoal. Para outras profissões o ideal é se informar diretamente no site Campus France Brasil. No fim do post tem um resumo em vídeo!

Ingressei na faculdade de psicologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) no primeiro semestre de 2003, depois de cursar um ano de direito na Puc-Minas, curso que não correspondia bem às minhas pretensões profissionais. No final de 2007 soubemos da possibilidade de sair do Brasil por conta de um programa de expatriações na empresa em que meu marido trabalha. Na época, ainda me restava cerca de um ano para concluir a graduação, e tive experiências tanto em clínica como em recursos humanos. Mas não sabia absolutamente nada sobre como ser psicóloga na França, pois este não era nosso destino inicial.

Tivemos a definição do destino de expatriação no ano de 2008 e a princípio iríamos para a região de Chicago, nos Estados Unidos. Mas 2008 foi também o ano da grande crise econômica cujas consequências são sentidas ainda hoje, dez anos mais tarde, e as vagas que inicialmente foram atribuídas para os EUA acabaram por ser redistribuídas em outras usinas, em outros continentes. Eu sabia que, para trabalhar como psicóloga clínica na terra do tio Sam, assim como no Canadá, precisaria de diploma de doutorado, somando outros três anos de estudos à minha graduação de cinco anos.

Ser psicólogo na França: percurso universitário

O percurso universitário francês difere do brasileiro em alguns pontos: não há vestibular para ingressar na universidade em parte dos cursos, como a psicologia. É necessário ter concluído o ensino médio e atestar de aprovação do exame de Baccalauréat, o Bac, que garante aptidão do candidato a continuar os estudos após término do ensino médio. A formação seguinte poderá ser de nível superior técnico ou universitário, conforme o projeto profissional de cada estudante.

O acesso à universidade atualmente se dá por meio de atribuição de vagas em função dos dossiês de candidatura às diferentes instituições de ensino superior no país, comunicadas através da plataforma Parcoursup. Como é um procedimento novo, que começou a ser usado em 2018, não tenho informações sobre o funcionamento e se ele se aplica para todas as especialidades ou apenas para as  ditas “grandes escolas” (onde há de fato uma triagem para entrada de alunos, com concurso de entrada).

Concluído o ensino médio, o aluno escolhe a universidade e se inscreve no primeiro ciclo de nível superior: a licence, equivalente da nossa graduação. Na França, a licence de psicologia tem duração de três anos e a escolha da habilitação já se faz nesse nível: o aluno direciona seus estudos em função do seu projeto profissional, seja ele clínica, psicologia do trabalho, neuropsicologia, psicologia da saúde, dentre outras especialidades. Concluídos os três anos iniciais de licence, acumula-se 180 créditos de estudos, e o estudante passa pela seleção para o segundo ciclo, master, com 120 créditos para os dois anos.

Com duração de dois anos, ao concluir o master tem-se o direito de exercer a profissão dentro da especialidade escolhida e segundo a orientação dos estudos. Há duas orientações possíveis: master tipo pesquisa, direcionado para a carreira acadêmica e abre a porta para o doutorado, ou master tipo profissional, direcionado para o exercício da profissão. A Aix-Marseille Université oferece a possibilidade, na especialidade de psicologia clínica, de cursar o master misto pesquisa e profissional, que garante acesso tanto ao doutorado quanto ao mercado de trabalho para exercício clínico, o que foi meu caso. Saindo do master eu tinha a possibilidade tanto de continuar os estudos em nível de doutorado, o terceiro ciclo, ou ingressar no mercado de trabalho, que foi minha opção.

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Validar diploma brasileiro de psicologia na França

Campus France é a agência francesa responsável pela promoção do ensino superior francês nos países com os quais tem parceria de cooperação, como o Brasil. Através do site do Campus France Brasil é possível obter todas as informações sobre procedimentos burocráticos para obtenção de visto de estudos, bolsas e as diferentes instituições de ensino superior do país.

O site é uma rica fonte de informações sobre os benefícios que o governo francês concede aos estudantes que ingressam no país em situação legal, assim como orientações sobre vida na França: abertura de conta bancária, custo de vida nas diferentes regiões do país, alimentação, sistema de saúde (sobre o qual já falei neste post).

Se você tem cidadania europeia, não precisa do visto de entrada na França, mas sugiro que leia as informações sobre revalidação de diplomas (tanto no sentido Brasil – França como inverso), assim como a rúbrica sobre estudar na França, que reúne informações sobre os diferentes ciclos (graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado).

Nível de francês exigido

Impossível ingressar numa universidade francesa sem um mínimo de conhecimento do idioma – a menos que sua formação seja ministrada em inglês. O nível exigido faz referência ao Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas. Essa classificação se divide em três níveis de dois subníveis: A1 e A2 sendo o básico, B1 e B2 intermediário, e C1 e C2 avançado. Para ingressar na Aix-Marseille Université eu precisei comprovar o nível B2, e na época fiz o exame DALF para o nível avançado e obtive o equivalente ao C1. Mais informações sobre os testes de francês no site do Campus France Brasil.

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Passo a passo da validação dos diplomas

Depois de obter meu exame de francês, em dezembro, tive bastante tempo para preparar meu dossier de pedido de validação de estudos superiores, antes de me candidatar ao mestrado. Me dirigir ao serviço responsável na Aix-Marseille Université, que me informou quais documentos eu deveria apresentar :

  • diploma universitário e tradução (todas as traduções feitas devem ser juramentadas) ;

  • currículo ;
  • carta de motivação explicitando meu projeto profissional – que era trabalhar como psicóloga clínica, em consultório ou instituições ;
  • atestado de conclusão de ensino médio ou equivalente que comprove conclusão da escolaridade e dê acesso ao ensino superior ;

  • documentos de identidade e visto válido (na época eu tinha visto, mas europeus são dispensados e apresentam apenas documento de identidade).

Balde de água fria

Meu processo foi analisado e não tardei a receber um retorno da universidade : o processo que eu deveria solicitar era mais complexo, pois a legislação para exercício de psicologia na França é bem específica. Eu deveria solicitar a equivalência dos três anos de licence para me inscrever no mestrado aqui, e para isso era necessário ter meus diplomas validados por um júri de professores do departamento de psicologia. Para completar o processo, precisei acrescentar uma tradução do meu histórico universitário.

O júri foi rapidamente reunido e durante uma entrevista que durou cerca de meia hora, expus minhas trajetórias acadêmica e profissional no Brasil, assim como meu interesse profissional em clinicar na França. Obtive do júri a equivalência ao nível de Master 1, mas disse que me inscreveria no master 1 mesmo assim. Sabia que as chances de ser selecionada no master 2 eram bem mais remotas, e meu objetivo inicial era cursar dois anos de mestrado.

Sobre meu primeiro ano do mestrado: Meio caminho andado

Mestrado: a cereja do bolo para validar o diploma brasileiro

Já expliquei acima o percurso universitário francês para quem faz o ensino médio aqui, e adiantei um pouco sobre a questão da especificidade do master para ter direito de exercer enquanto psicólogo clínico. Por se tratar de profissão regulamentada, é indispensável que o diploma de graduação, equivalente à licence, seja também emitido por uma universidade francesa, segundo a orientação que recebi na universidade.

Hoje, mais de cinco anos depois de ter concluído o mestrado, é até difícil lembrar do quão tensa fiquei em diversos momentos, como a procura pelo estágio no primeiro ano, as provas intermináveis também no primeiro, a redação das monografias de pesquisa nos dois anos, e dos relatórios de estágio. Sem falar nas defesas: ambas monografias foram apresentadas oralmente aos professores responsáveis pelo grupo escolhido, e no segundo ano o relatório de estágio também foi apresentado oralmente, com um terceiro membro no júri, o psicólogo responsável pelo estágio na instituição onde estagiamos.

Os estágios

A parte do estágio merece uma menção especial pois foi a principal diferença que notei com meu curso no Brasil. Quando fiz a entrevista de seleção do mestrado, os professores me perguntaram onde eu faria meu estágio, e este foi um segundo balde de água fria que levei. Sai da entrevista bem arrasada, achando que não conseguiria nada, e no fim fui selecionada justo nessa especialidade. O estágio acabei encontrando pouco tempo depois do início das aulas, pois recebíamos algumas poucas ofertas de estágio que eram enviadas aos professores. Mas no geral, é o aluno quem procura o estágio na instituição que gostaria de ter experiência – o que não necessariamente garante que vamos ser selecionados, por isso é importante ter em mente os objetivos profissionais.

Meu estágio no primeiro ano foi num abrigo para adultos com autismo, psicose e outros transtornos mentais, eu participava de alguns ateliers para os residentes, e de tempos em tempos tinha reunião com o psicólogo que era responsável pelo meu estágio. Já no segundo ano fiz estágio em serviço ambulatorial de psiquiatria infantil do hospital psiquiátrico, um centro de consultas médico-psicológicas, onde pude participar de grupos terapêuticos e também atender diretamente alguns pacientes. Pude também ter experiência em hospital-dia com crianças autistas e psicóticas, atuando em grupos terapêuticos.

Na época que validei meu diploma eram necessárias 600 horas de estágio no total, sendo 200 horas feitas ao longo do primeiro ano, e 400 horas feitas ao longo do segundo ano. Acabei por acumular 600 horas só no segundo ano, pois à medida que meus cursos acabavam pude aumentar a frequência de presença no estágio, e conclui o mestrado com 800 horas acumuladas.

A defesa do relatório de estágio no segundo ano é o momento mais importante do processo para obter o diploma, pois é ali que temos a confirmação (ou não) da aptidão para o exercício da profissão. Ao sermos aprovados na apresentação do relatório de estágio, somos oficialmente psicólogos clínicos e podemos exercer a profissão dentro da especialidade, seja em consultório seja em outras instituições onde o psicólogo clínico pode atuar (hospitais psiquiátricos ou gerais, instituições médico-sociais, órgãos de formação).

Mercado de trabalho

No exato dia da minha defesa do relatório de estágio, assim que recebi o papel com a aprovação, já estava apta a clinicar aqui, e poderia procurar emprego. Me apressei em preparar currículo e enviei logo pro hospital onde trabalhava, pois sabia de uma vaga lá. Isso foi início de julho. Foi o único currículo que enviei, e em seguida passei dois meses de férias. Quando voltei de viagem da Córsega, recebi uma proposta pra dividir uma sala com outros três psicólogos, e ali eu cliniquei por um tempo.

Em janeiro, fui chamada para uma entrevista no hospital onde tinha feito o estágio (note-se que seis meses tinham se passado desde a candidatura e a ligação pra entrevista, que não seria para a vaga pra qual tinha me candidatado (por isso a demora). No início de fevereiro, estava trabalhando.

Por ser uma região com muitos atrativos, além de ter a maior universidade francesa em número de alunos, as vagas de trabalho são disputadíssima por aqui. Para procurar emprego, fiz um currículo e escrevi uma carta de motivação, detalhando um pouco minha trajetória e explicitando meu projeto profissional, deixando brecha pra desenvolver mais numa eventual entrevista. Assinei um CDD (contrato de duração determinada) e trabalhei um ano e meio nesse emprego, num hospital público.

Para que eu fosse titularizada na função, deveria passar por um concurso, que não aconteceu enquanto trabalhei lá. E infelizmente acontece raramente, o mais comum é termos CDDs que se acumulam por muito tempo, até que se abra um concurso. Em compensação, em associações é mais comum termos CDI (contrato de duração indeterminada, mais estável e com possibilidade de evolução salarial, diferente do CDD).

Para se inscrever nos concursos da função pública hospitalar na França é necessário ser cidadão francês ou europeu, mas para ter outro contrato de trabalho, tipo CDD ou CDI, um visto válido com autorização para trabalhar é o suficiente. E para clinicar em consultório, apenas o visto válido é necessário para criação do “micro empreendedor individual” para declaração e recolhimento dos impostos.

Salário de psicólogo não é dos mais atrativos, principalmente na função pública: o inicial bruto fica por volta de 1800€ (cerca de 1450€ líquidos ao mês), e essa faixa salarial não tem correção enquanto não houver titularização. Já em associações ou serviços privados o salário inicial é um pouco mais alto, mas não muito: se for seguir a tabela da convenção 66, o bruto inicial para um tempo integral (35h semanais) é mais alto: 3000€. Mas são vagas bem mais difíceis de ingressar num tempo integral, o mais comum é que o contrato seja de meio período.

2 Responses

  1. Lays

    Olá, Natália. Tudo bom?
    Incrível como parece meio destino as coisas. Eu vou me formar esse ano como psicóloga (ja é a minha segunda graduação) e procuro sobre validação do meu diploma na França e no Canadá (meu tio mora em Alberta) e você publicou o seu post não tem nem uma semana rs.
    Ele foi tão bem explicado e organizado que não fiquei com praticamente nenhuma dúvida! :).
    Só queria saber se você tinha procurado os estágios antes da entrevista.
    Obrigada pelo post!

    • Natalia Itabayana

      Ei Lays! No vídeo expliquei tudo, não procurei pois não sabia como funcionava!

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