Meia maratona de Paris

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Comecei a correr em dezembro de 2009, poucos meses antes de me mudar pra França. Na época, nunca, mas nem de longe, a possibilidade de correr a meia maratona de Paris me atravessou o pensamento. Ao contrário, quando recebi minha primeira planilha de treino me perguntei se não cairia dura e morta ao fim dos 1.2km indicados no primeiro dia. A escolha pela corrida tinha sido prática: não precisava ir pra academia, compartilhar dos odores corporais nausebundos alheios – sabe-se que tais odores são bem conhecidos neste país onde moro. Outro aspecto prático: só precisaria de um par de tênis, apetrecho que é fácil de ser levado para qualquer lugar, e muito confortável em viagens. Mas naquela época eu reclamava de ir à pé na padaria que ficava a 150 metros da minha casa, imagina correr 21.097 metros? Cruzes.

De lá pra cá, muita coisa mudou além dos meus pares de tênis, do meu endereço e dos meus cabelos. Correr deixou de ser inalcançável e passou a ser um vício. A ponto de me arrancar lágrimas quando me vi privada do esporte, por conta de uma lesão séria no joelho – sofrida praticando outro esporte, já contei a façanha neste post. Correr foi a melhor maneira de extravazar o estresse e a tensão acumulados ao longo dos dois anos de mestrado: grande parte dos meus escritos foram possíveis depois de uma boa corrida. Quando comecei a trabalhar na minha área, meu dia começava depois de uma boa corrida pela cidade. Eu acordava muito cedo, corria entre 30 e 40 minutos, e seguia pro trabalho (ah, a vida antes dos filhos). Hoje minha prioridade é dormir, acima de correr e comer – posso correr sem comer, mas não posso correr sem dormir.

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Corrida depois da maternidade

E quando chegou a criança, voltei a correr tão logo o médico me liberou – 2 meses depois do parto. Mas também corri desse médico, que disse que meu leite iria diminuir por causa da corrida (conversei sobre o tema com Helo Righetto neste vídeo). Quando Vic tinha 5 meses, comecei a leva-lo comigo pra correr, afinal escolhi um carrinho apropriado pra isso. Nesse meio tempo, inventei de me preparar para uma meia maratona, a terceira que participaria, e a primeira depois de ser mãe. Treinava cinco vezes por semana, sendo que em 3 de cada 5 treinos eu empurrava um carrinho de bebê pelas subidas e descidas em torno do estádio perto da minha casa, enquanto ele cochilava. Aos 13 meses, Vic atravessou sua primeira linha de chegada de uma meia maratona. Ele treinou comigo, nada mais justo do que estar comigo naquele momento. Meu tempo nessa corrida foi de 2h22′, e no último quilômetro minha única preocupação era se ele estaria acordado pra cruzar a linha de chegada comigo.

Durante esses mais de 6 anos, treinei por conta própria, tendo tido orientação profissional apenas no início. Quando decidi encarar minha primeira meia maratona, foi graças ao livro Running, de Jonh Stanton, indicado por uma amiga. Segui as planilhas de treino em outras duas provas de mesma distância. Mas confesso que foi só depois de ser mãe que fui procurar um clube de corrida, e por uma série de motivos: eu queria encontrar gente que compartilhasse a mesma paixão, que falasse das mesmas coisas, que contasse experiências. Eu queria ser mais do que uma mãe que corria. Meu contrato de trabalho tinha terminado, Vic estava na creche e eu voltei a procurar emprego, mas as portas estavam fechadas. Eu era mãe o tempo todo. Uma mãe que corria. E eu não aguentava mais isso, nem o olhar condescendente das pessoas que me cruzavam pelas ruas enquanto eu corria empurrando um carrinho de bebê. Eu queria só correr, e falar de corrida, e falar de qualquer coisa que não fosse relacionada ao universo bebê. E depois de 6 anos na França, me inscrevi num clube de corrida. Foi a decisão mais acertada pra me dar ânimo pra continuar.

Clube de corrida

Eu continuei sendo uma mãe que corre com seu bebê, porque ele ia comigo no início dos treinos. Mas aos poucos ajeitamos nossa rotina, e eu tinha meu tempo pra mim. Pra correr numa pista de atletismo, coisa que jamais me imaginei fazer. Eu, que fingia dor de cabeça pra não frequentar aula de educação física no colégio. E aí que finalmente me inscrevi numa prova que queria participar há muito tempo: a mítica Marseille-Cassis, com inscrição disputadíssima, mas graças ao clube consegui uma vaga. São 20km de um percurso maravilhoso, com um desnível de mais de 300 metros, e 5km de subida. Só subida. E eu queria morrer porque nunca mais parava de subir. Mas em uma hora eu tinha vencido os 10 primeiros kilômetros. Depois de ter subido aquele paredão que, percorrido à pé, nem é tão assustador quanto visto do conforto do banco do carro. Em menos de duas horas eu tinha cruzado a linha de chegada. Eu não aguentava mais correr, mas eu estava tão perto do meu objetivo que nem acreditava que iria desistir ali. Não dava. E não desisti.

Só que, no meio da preparação pra essa prova, exatamente cinco semanas antes dessa prova, recebi um convite irrecusável: participar da meia maratona de Paris. A mesma Helo Righetto, que tinha acabado de se inscrever, plantou em mim a sementinha do “vambora correr nessa cidade linda“. Eu gosto de correr pelos lugares que visito, mas nunca consegui encaixar uma corridinha em Paris. A ocasião era a deixa perfeita pra eu ver a cidade de um ponto de vista completamente diferente. E acabei me inscrevendo na prova.

E nesse meio tempo voltei a trabalhar em tempo integral como psicóloga, a 55km de casa. Conciliar treinos + trabalho + tempo passado com a família + estudos (porque né, que tal decidir fazer uma formação em fotografia além de tudo isso) foi um desafio doido. Foram 6 semanas de uma corrida maluca, fazendo malabarismo entre tudo isso – acho que não peguei a gripe monstra que derrubou o Bernardo por sorte, mas perdi uns treinos mesmo assim. Mesmo treinando em grupo, parte dos meus treinos fiz sozinha, porque nem todos temos os mesmos objetivos, nem o mesmo ritmo. E o dia mais difícil foi quando tive que correr 9km no estádio. 3 x 3000 metros. Numa pista de 400 metros. Eu era o próprio ratinho na rodinha da gaiola. Numa noite gelada.

Ai que dor

Três semanas antes da prova, uma dor começou a me incomodar. Era uma dor familiar, já tinha feito exame e nada tinha sido detectado na época. Mas dessa vez fui direto no meu osteopata. Entrei mancando no consultório, com medo de ter de desistir da prova, culpando os tênis novos pelo problema. “Se voltar a doer, volte aqui”, disse ele, quando tive uma dor horrorosa no ombro, anos atrás. A dor nunca mais voltou, e fiquei anos sem voltar também. “Você não veio aqui por causa do quadril da outra vez”, disse ele. Acho que se referia ao dia que colocou minha mandíbula no lugar e não tive mais dor de ouvido. “Não, mas tenho a meia maratona de Paris em três semanas, e to preocupada com essa dor, to mancando.”

Aperta aqui, aperta ali, eu quase vi estrelas quando ele examinou os pontos na região lombar. Eu tinha uma vértebra fora do lugar, que tinha bagunçado tudo, e era responsável pela dor na região ciática. Depois de ter mexido aqui e ali, e me torcido como seu eu fosse toalha molhada que sai do tanque, levantei me sentindo 85% melhor, e sai sem mancar do consultório. Em uma semana não tinha nem vestígio da dor. Retomei os treinos me sentindo muito melhor, e contente com o resultado, pois meu ritmo estava melhorando. Talvez eu pudesse me fixar um objetivo, baseado no meu tempo na prova Marseille-Cassis e no fato de não sentir mais aquela dor. E consegui participar dos treinos de domingo, os mais longos, e os únicos que até então não tinha conseguido participar desde meu ingresso no clube,por privilegiar a yoga nas manhãs de domingo.


Europa 1

Organizando a multidão

Éramos 45 mil inscritos. Nossos nomes foram impressos num mural imenso que ficou exibido no parque, onde fomos buscar nossos kits de prova. Camisa, número e microchip nos aguardavam, e as primeiras palavras de coragem ditas pelos voluntários já convidavam ao clima da prova. Os kits foram distribuídos na sexta e sábado antes da prova, nada de entrega no domingo. Fomos divididos em pelotões, com horários de largada diferentes, para evitar tumulto. O acesso aos pelotões era controlado em função das cores impressas no número de corrida, que indicava o objetivo de tempo ao qual pertencia o corredor. Meu objetivo era 2h, minha largada estava prevista para 10h10, e eu só poderia acessar a zona de largada depois das 9h30, o que me deu uma folga para me arrumar de manhã e chegar com calma.

Importante: para participar de qualquer competição de corrida na França é necessário apresentar atestado médico de “não contraindicação de corrida em competição“, modelo geralmente disponível em inglês no site onde se inscreve pra prova. Caso não apresente o atestado, o número de participante e chip não serão entregues.

Pronta pra largada!

 

Dia D: encarando a meia maratona de Paris

Vários eram os objetivos que eu tinha em mente com relação à essa prova, mas o principal era os encontros em torno dela. Faz não sei quantos anos que conheço a Helo virtualmente, mas ainda não tinhamos desvirtualizado essa amizade. E os encontros foram ótimos, tanto o jantar combinado com Helo, Martin, Filipe e Paula, quanto o encontro mais surreal que tive com a Renata, que também veio de Londres pra correr. Nos esbarrramos no metrô, depois de termos nos desencontrado na largada e no fim da prova. Além do clima absurdamente animador antes da largada, uma energia muito maluca mesmo, de um monte de desconhecidos – uns 40 mil mais ou menos – que acordam numa manhã chuvosa de domingo pra encarar 21.1km de corrida.

Mas não é uma corrida qualquer, num lugar qualquer. Largada e chegada acontecem na frente do Château de Vincennes, e o itinerário passa por lugares míticos da capital, como a Bastilha, torre Saint-Jacques e Catedral Notre-Dame de Paris, além de passar nas proximidades da Place des Vosges. Isso além de ter a oportunidade única de correr às margens do Sena, em avenidas completamente dedicadas aos veículos. A perspectiva da cidade muda completamente, e correr por Paris estava na minha lista de desejos há tempos, vontade que só fez aumentar depois que corri por Lyon numa viagem a passeio.

Pernas pra que te quero

Eu sabia que iria correr debaixo de chuva. Desde que me inscrevi, os comentários dos colegas alertando sobre a alta probabilidade de chuva não desanimaram, só torci muito pra não ter vento. Levei boné e casaco impermeáveis e só. A chuva começou bem tímida ainda no caminho pra largada, e manteve-se gentil ao longo de todo o percurso, mas não arredou pé. Não tivemos um dilúvio ou ventos fortes, mas uma chuvinha constante ao longo de todo o percurso, poças d’água aqui e ali, e os pés cruzaram a linha de chegada encharcados, carregando um corpo que chegou quase ao limite do esforço, com um tendão doendo e uma panturrilha pedindo arrego.

Quando estava no km 18, comecei a me dizer que não cruzaria a linha de chegada em menos de 2 horas, mas que estava tudo bem. O importante era completar a prova, sem me sacrificar o corpo. Quando eu achava que toda força que tinha nas pernas havia acabado, consegui acelerar um tico ao ver o fim, e cruzei a linha de chegada em 2 horas, 1 minuto e 21 segundos. Melhorei um tico meu tempo em relação à Marseille-Cassis, e fui 21 minutos mais rápida com relação à meia maratona que terminei em companhia do Vic. A chuva ao longo da prova serviu pra me lavar a alma.

A medalha e a Bastilha!

Nossa hospedagem em Paris

Ficamos em Paris por duas noites, e nos hospedamos em dois hoteis diferentes. Na primeira noite ficamos no Novotel Paris Sud Porte de Charenton por conta da proximidade com o local da largada, e me dispensava o uso dos transportes para chegar até lá. Já tinhamos nos hospedado nos arredores do hotel em outra ocasião, por isso conheciamos a localização, na frente da estação Liberté da linha 8 do metrô, pertinho de restaurantes e supermercado. Eles foram super gentis e disponibilizaram cama pro Vic, além de oferecer um menu especial no jantar da véspera da corrida, café da manhã reforçado pros atletas. Nós já tinhamos nosso jantar marcado com os amigos, mas achei super legal essa organização deles pensando na prova. Além disso, também nos deram a possibilidade de liberar o quarto às 14 horas, que foi perfeito pois deu tempo de voltar com calma (mancando, quase arrastada) e tomar meu banho.

Trocamos pro Ibis Gare de Lyon Ledru Rollin também pela localização excelente, a dois passos da estação de onde nosso trem sairia no dia seguinte. Além disso, fica perto da Coulée Verte, o parque construído numa antiga linha de trem e que inspirou a High Line de Nova York, e da esquina da rua vê-se o monumento da Bastilha. Sempre procuro me hospedar na região do 12 distrito pela proximidade com nosso ponto de chegada e partida, além de ser um lugar de fácil acesso, com boas opções de restaurantes. E eu tenho um amor pela Coulée Verte, Vic correu solto por lá enquanto esperávamos o horário do nosso trem de volta pra casa. Foi nossa primeira estadia neste hotel, e definitivamente repetiremos quando voltarmos à capital.

4 Responses

  1. Helo

    que post lindo ❤️ posso dizer q eh meu preferido de todos?? foi maravilhoso estar com vc mesmo q tao rapido!!!

    • Natalia Itabayana

      Também super amei nosso encontro! Torcendo por outros, e que a corrida seja fora deles mesmo!

  2. Oito primaveras na Provença - Destino Provence

    […] Consegui me inscrever na desejada corrida Marseille-Cassis e bati um recorde pessoal em longa distância, correndo os 20km da prova em 1h56′, sem ter desistido ao me deparar com os 5km de subida (foram 330 metros de desnível). O ano terminou no Brasil, matando saudade da famíia e amigos e esquentando os pés no atlântico. Na volta, o trabalho novo esperava, novos projetos, e muita energia e mais um recorde pessoal em corrida, com a meia maratona de Paris. […]

  3. Viajento

    Que experiência incrível, tudo o que levou até ela. Realmente uma inspiração para as outras pessoas que ainda tem aquela preguicinha de ir a pé até a padaria, mas têm aquela vontade de mudar o estilo de vida.

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