Oito primaveras na Provença

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Oito primaveras se passaram desde que desembarcamos na Provença. Tanta coisa aconteceu ao longo desses oito anos… Mas vou tentar fazer uma pequena retrospectiva focada nesse último ano, como faço todos os anos. Apesar da previsão anunciar chuva, como aconteceu no dia da nossa chegada, hoje fomos poupados – por ora. O céu está carregado de nuvens, algo relativamente raro por aqui, pois contamos uma média de 300 dias de sol por ano.

Ao mesmo tempo, março é um mês com chuvas – sem elas, as flores não brotam e a primavera não é tão mágica. Mas este mês de março foi particularmente frio, com direito à neve mesmo em Aix-en-Provence. Neve que imaginei cobrir o topo da montanha Sainte Victoire quando aqui desembarquei, ao me deparar com aquele monte claro no horizonte. Mas a montanha é branca graças ao calcáreo e, apesar da neve ter coberto a cidade por pelo menos três vezes nesse inverno, não vi a montanha branca, pura falta de tempo.

Passeios

Visitamos lugares que estão pertinho da gente, mas que sempre acabavam por ficar pra depois. Saint-Tropez demorou sete anos e meio pra sair da minha lista de lugares a visitar, mesmo ficando a menos de duas horas de casa. Ardèche e seu belíssimo cânion e grutas também demorou o mesmo tempo pra ser desbravado, e nos surpreendemos com outros lugares pelo caminho. Atravessamos o atlântico pra que Vic conhecesse o tio que mora no Canadá e visitamos tantos campos de lavanda nesse verão de 2017 que deixou muita saudade.

Consegui me inscrever na desejada corrida Marseille-Cassis e bati um recorde pessoal em longa distância, correndo os 20km da prova em 1h56′, sem ter desistido ao me deparar com os 5km de subida (foram 330 metros de desnível). O ano terminou no Brasil, matando saudade da famíia e amigos e esquentando os pés no atlântico. Na volta, o trabalho novo esperava, novos projetos, e muita energia e mais um recorde pessoal em corrida, com a meia maratona de Paris.

Uma mudança e tanto

Nem só de mudanças profissionais foi feito esse oitavo ano de vida na França. Ao longo desses anos, alguns marcos importantes em nossas vidas valem a menção: meu diploma de psicóloga foi validado aqui, nosso filho nasceu aqui, e deixei de ser estrangeira no país onde moro. Sim! Virei francesa. Desde de 22 de setembro de 2017, quando meu decreto de naturalização foi assinado, eu e Vic viramos cidadãos franceses. Em termos práticos, ganhei o direito de votar em eleições presidenciais – até então, por ser cidadã italiana, podia votar apenas nas eleições municipais.

Simbolicamente, o valor é inestimável. No dia da minha cerimônia, quando recebi o decreto em mãos, junto com minha certidão francesa, recebi também a ampliação do decreto, concedendo a nacionalidade também ao Vic. O simples fato dele ter nascido aqui não significa que ele é cidadão francês, e isso também me motivou dar entrada no processo de naturalização. Mas vou contar em detalhes num outro post.

Passeando em Saint Tropez no outono

 

Sob a sombra da castanheira onde nos conhecemos

 

Encerrando capítulos

2017 foi um ano muito difícil pra muitos, inclusive para mim. Muita dificuldade relacionada à minha possível volta ao mercado de trabalho na minha área, que não se concretizava. Em junho, enviei minha última candidatura à uma vaga de psicóloga clínica. Durante o verão, encerrei minhas atividades no consultório. No início do ano, decidi diversificar minha atuação profissional e me dedicar de fato ao blog, oferecendo serviços através dele. Daí nasceram os Roteiros Personalizados, que comecei a elaborar em maio de 2017.

Passei o verão trabalhando em roteiros personalizados para quem vinha pela primeira vez à França, ou quem iria descobrir as regiões da Provença e Côte d’Azur. Foi uma experiência deliciosa, a cada roteiro me transportava aos lugares por onde meus clientes iriam se aventurar. Era como seu eu viajasse novamente a cada novo itinerário criado. E foi em agosto que decidi abraçar de vez o caminho dos serviços voltados ao turismo, e entreguei as chaves do consultório. Foi um longo processo de despedida da minha profissão de formação, doloroso por vezes, mas importante.

Recomeços

O verão de 2017 foi para mim o momento de encerrar um capítulo da minha vida profissional, e analisar novas possibilidades. Eu tinha acabado de começar a criar a atividade de roteiros personalizados e estava muito satisfeita com o trabalho feito. Mas decidi que daria um passo além de criar os roteiros. E pensei em tirar da gaveta um projeto antigo, que me acompanhou pra França na mala. Em 2009 pedi um presente diferente de aniversário pro Bernardo: um curso de fotografia. Foi um curso intensivo, de curta duração e com noções básicas, mas plantou a sementinha de um sonho. Desde muito pequena eu gosto de fotografia, influenciada pelo avô.

E quando resolvi pedir esse presente, meu intuito era aprender técnicas para aperfeiçoar com a prática, e registrar bem nossos passos pelo mundo. Já sabia que viríamos pra França, e também me projetava num futuro um tanto distante, pensando em me profissionalizar na área. E assim que nesse verão decidi retomar os estudos de fotografia, e tirar do fundo da mala esse projeto antigo. Meu mais novo serviço de ensaios fotográficos na Provença se juntou assim aos Roteiros Personalizados, e também ampliei meus serviços para os passeios guiados em Aix-en-Provence e Marseille.

Oito primaveras depois

Quando eu menos esperava, quando tinha decidido colocar o ponto final no capítulo “psicóloga”, e às vésperas do meu embarque pro Brasil, fui chamada pra uma entrevista. Soube do resultado quando estava quase chegando no aeroporto de Marseille. Fui contratada temporariamente até o fim de setembro de 2018, e me encontrei conciliando os estudos e práticas de fotografia, a formação clínica que curso pelo segundo ano, meus projetos profissionais com o blog e ainda a vida de família. Além disso, o trabalho fica a 55km de casa, viajo todos os dias. Isso me levou pro meio da Camargue, um pedacinho lindo da Provença cujas belezas em breve aparecerão por aqui também. Sigo com as propostas originais de Roteiros, Ensaios Fotográficos e passeios guiados, adaptando tudo isso à minha agenda atual. Foi uma surpresa quando fui contactada pra vaga, cinco meses depois de ter enviado aquela última candidatura em junho…

E isso é uma das lições mais importantes que aprendi ao longo dessas oito primaveras por aqui: ser flexível nas decisões. Eu hesitei muito em retornar a ligação me propondo a vaga. Passei uma manhã inteira pensando sobre o assunto, pensando no meu projeto. E decidi saber um pouco mais, e tentar, pois afinal, era uma seleção, não uma proposta direta. E fui bem franca na entrevista, expus meu projeto de mudança de profissão. E estou há três meses conciliando tudo isso como posso, fazendo uma concessão aqui, outra acolá pra tentar manter um equilíbrio. E ao longo desses oito anos, buscar equilíbrio tem sido um exercício constante e incansável.

 

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