História de Aix-en-Provence: Memorial do Campo des Milles

postado em: Aix-en-Provence, Europa, França | 13

Memorial do Campo des Milles

Visita ao campo de deportação de judeus em Aix-en-Provence

11 de novembro de 1918. Minha bisavó materna tinha exatos quatro anos. Na Europa, a Primeira Guerra Mundial chegava ao fim, deixando o continente devastado. Pra se reconstruir, e ser novamente devastado pela guerra entre 1939 e 1945. Minha bisavó, morando em Vitória na época da Segunda Guerra, não passou pra seus filhos um de seus sobrenomes que era de origem alemã. Naquela época, o motivo era óbvio. Mesmo a família de seus ancestrais tendo migrado pro Brasil no fim do século XIX, ela soube que não seria um sobrenome leve pra deixar de herança.
Até hoje desconheço as origens germânicas da família, acredito que tenha sido um tabu, nunca foi um assunto tratado ao redor da mesa num almoço de domingo em família. E entendo perfeitamente a razão. Morando em Vitória, minha avó presenciou o toque de recolher. Sirenes. Exército. O Espírito Santo é um estado onde uma grande população é composta por imigrantes italianos e alemães que chegaram décadas antes, e era necessariamente um estado onde a questão mais complicada da segunda guerra poderia chegar. São lembranças de uma infância longínqua que ela me relatou pra satisfazer minha curiosidade de criança. Apesar da guerra não ter tocado o solo brasileiro, enviamos alguns dos nossos compatriotas pra lutar no velho continente. E quis o destino que, um dia, eu viesse parar justamente nesse continente de onde sairam alguns dos meus antepassados, que partiram em busca do eldorado no Brasil.

 

E foi num domingo de outono, um dia que começou com sol, coisa rara pro mês de novembro, que escolhemos pra fazer um passeio para o qual eu vinha me preparando desde o verão. A viagem foi curta, 4km apenas separam nossa casa do destino escolhido. Quando passamos por uma praça, um certo número de pessoas se encontrava ali, alguns trajando suas fardas, outros em suas roupas de civis. E foi então que caiu a ficha: era a celebração do armistício da primeira guerra, o 11 de novembro de 2012. Estacionamos e nos juntamos ao grupo. Diante de mim, crianças que não sabem o que é uma guerra, além da que fazem com seus travesseiros, se juntavam a adultos que depositavam arranjos de flores aos pés da estátua em memória dos combatentes mortos, que podemos ver em praticamente toda cidade da Europa, não importa o tamanho. E antigos combatentes da guerra recebiam condecorações por seus feitos. Uma cena que só consigo classificar como surreal, porque se inscreve também no lugar escolhido para visitarmos nesse domingo. Encerradas as homenagens, inclusive aos soldados que tombaram no Afeganistão, prosseguimos pro nosso destino. Caminhamos alguns metros e chegamos à portaria de uma antiga fábrica de tijolos.

 

Vestígios do Holocausto em Aix-en-Provence

Na fachada, o primeiro detalhe que chamou atenção foi uma grande imagem de Nossa Senhora, bem no alto do edifício. Um bombeiro nos recebeu, e nos orientou à entrada principal, dizendo que as fotos só eram autorizadas no exterior do local. Ao chegarmos à recepção, uma moça nos deu um primeiro aviso: faz muito frio lá dentro, porque a intenção é dar aos visitantes uma ideia aproximada das condições da época. Ela também nos disse que o tempo de visita é longo, de aproxidamente três horas e meia, e que só tem toilettes na entrada, seria melhor ir antes de iniciar o percurso, onde assistiríamos vídeos com cenas fortes. Agradecemos e atravessamos uma porta automática, entramos numa sala com bancos dispostos e aguardamos o início de um filme. Relatos de fugitivos daquele lugar, impossível segurar a emoção. Estávamos no Camp des Milles, um dos campos de deportação de judeus da França durante a Segunda Guerra, o único que foi transformado em Memorial, para que um dos capítulos mais negros da história do país, segundo o antigo presidente Jacques Chirac, não seja apagado.

O Memorial do Camp des Milles foi inaugurado no dia 10 de setembro de 2012, data escolhida não por acaso, uma vez que foi a dia em que o último comboio de deportação com destino à Auschwitz deixou o local, em 1942. O desejo das famílias dos deportados, assim como dos próprios presos que conseguiram escapar da deportação, era que essa história não fosse esquecida, muito menos repetida. O resultado desse desejo é um trabalho de preservação, de conscientização e de informação feito com muito cuidado e que proporciona aos visitantes informações sobre o contexto histórico durante o qual o episódio do holocausto aconteceu, assim como informações sobre os presos no Camp des Milles e a história da fábrica antes de ela ser transformada num campo de deportação.

Como a intenção da fundação é promover sensibilização e reflexão em torno das causas de movimentos de racismo e preconceito existe uma preocupação em mostrar não apenas a Shoah que aconteceu entre 1939-1945, mas também o Semudaripen, o genocídio dos ciganos que também aconteceu durante o nazismo, sem esquecer a Tséraspanoution dos armenos entre 1915 e 1916, genocídio reconhecido por 21 países, mas negado até hoje pela Turquia, e o último genocídio evocado durante o tempo de reflexão da visita, o genocídio em Rwanda cometido pela etnia Hutu contra a etnia Tutsi.

Visitando o Memorial do Campo des Milles

Nossa visita durou 4 horas, mas que parecem ter sido 4 anos, tamanha a intensidade e importância das informações. Ali, aprendi que um presidente que tinha sido heroi da primeira guerra tomou a iniciativa de deportar judeus, inclusive cidadãos franceses, sem mesmo que o governo nazista tenha feito qualquer demanda nesse sentido. Mas também aprendi que, apesar das atrocidades cometidas em qualquer tipo de situação-limite como esta, ações bondosas são realizadas. Um árabe compra um armeno como servo para evitar que ele seja executado. Um alemão adota uma criança judia, que ele vai salvar do campo de extermínio. E a visita termina com o mural dos justos, um mural consagrado aos herois que escolheram a outra via, a via do respeito, a via do não-conflito mesmo que num movimento de clandestinidade face ao governo, herois que testemunham que não existe um só caminho, e que o caminho que vai contra a autoridade imposta ou de fato, quando escolhido tendo como objetivo a resistência à monstruosidade.

Informações práticas:

Memorial do Camp des Milles – Aberto de terça-feira à domingo (fechado às segundas-feiras), de 10h às 19h. Duração da visita: 3 horas.
Entrada: 9,50 euros tarifa integral, 7,50 tarifa reduzida (estudantes, crianças). Gratuita para crianças com menos de 9 anos, antigos combatentes, deportados  e antigos resistentes.

“ENGRENAGENS RESISTÍVEIS – preconceitos – ciúmes – antisemitismo – racismo – medo e rejeição – discriminações – crises – bode expiatório – insultos – ameaças – demagogia – minorias – maioria passiva – extremismos – violências – democracia em perigo – VIGILÂNCIA…”

 

“Desta plataforma em agosto-setembro de 1942, 1928 homens, mulheres e crianças judeus foram deportados do campo des Milles para os campos de extermínio nazis via Drancy. Refugiados da Europa central ou judeus da França, eles foram entregues pelo governo de Vichy antes mesmo da ocupação alemã na região sul. Entre eles, 92 crianças. Guardemos o episódio em memória, para o presente e o futuro.”

 

13 Responses

  1. Unknown

    Também por causa da guerra o sobrenome Gabriele não constou no nome da minha avó (sua bisa materna)… Mas está lá nas placas de pedras, no "porto" do Rio Beneventes, em Anchieta, onde muito provavelmente aportaram nossos antepassados, e quis o destino que você começasse sua vida no mesmo lugar onde nossas origens estão…

  2. Giselle Gurgel

    Realmente os memoriais pós guerra nos fazem pensar muito. Eu fico num misto de tristeza profunda com um arrependimento do que eu não vivi. Mas é bom também, desperta um lado humano que deve mesmo ser despertado. O seu toque familiar pessoal enriqueceu bastante o texto, obrigada por compartilhar isto conosco! Até a próxima 🙂

  3. Jackie e Rômulo

    Nat, amo história, acredito na importância de não nos esquecermos de fatos tão importantes. Seu post com certeza conttibui pra sensibilização das pessoas que busquem informações sobre este local. O texto é tocante. Parabéns.
    bjs,

  4. Melissa

    Nossa, que visita emocionante! Eu acabei de ler o Diario de Anne Frank e ler esse post me fez recordar tudo que ela conta sobre a guerra, a sensação de ler o livro. Foi na Holanda, mas foi durante a segunda guerra tambem. Voce ja visitou o Museu? Eu quero visitar! beijos

  5. Natalia Itabayana Junqueira de Mattos

    Giselle, eu achei a proposta do Memorial de ser um lugar pra dar voz aos deportados e ao mesmo tempo pra sensibilizar as novas gerações sobre os perigos e armas dos radicalismos um caminho interessante que provoca reflexão que podemos incorporar ao nosso dia a dia, nas nossas relações com os outros. Acho que no Brasil, temos certa carência de uma reflexão mais aprofundada com relação à questão da ditadura militar, por exemplo, inclusive por respeito aos que dela padeceram…

  6. Natalia Itabayana Junqueira de Mattos

    Melissa,
    estivemos em Amsterdam ha pouco tempo por algumas horas durante uma conexão, e tentamos ir à casa da Anne Frank mas a fila era imensa e o frio congelante nos desencorajou, estávamos sem roupas apropriadas, acabamos deixando a visita pra outra ocasião 🙁
    Um amigo visitou e gostou muito!

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