6 de ago de 2014

Rota do vinho na Provença: Châteauneuf du Pape


O mês é agosto. Um cortejo deixa o palácio na cidade de Avignon, e segue o curso do caudaloso rio Ródano em direção norte, onde o mais ilustre dos presentes irá ocupar seu lugar de honra no castelo estrategicamente construído no alto da colina, de onde tem-se vista privilegiada pro primeiro castelo. Ao aproximar-se do destino, o cortejo percorre cuidadosamente os vinhedos dispostos ao longo do caminho. O verão avança, o calor começa a conferir às uvas sua tonalidade avermelhada, indicando que em pouco mais de um mês a colheita vai começar. Estamos no século XIV, o papa Clemente VI ganha seus aposentos no castelo de veraneio no meio dos vinhedos. Bem-vindos à Châteauneuf-du-Pape.


Quer se hospedar aqui? O *Château des Fines Roches* é um hotel e restaurante pertinho do centro do vilarejo

O início da produção do mais nobre dos vinhos provençais remonta à época em que os papas deixaram o Vaticano e se instalaram em Avignon, entre os séculos XIV e XV, mas as primeiras videiras foram plantadas antes da chegada dos pontífices, no século XII. E o cultivo papal teve início sob Clemente V, o primeiro papa de Avignon, e as terras papais contavam 8 hectares na época do papa João XXII, tendo incorporado extensões de terra que pertenciam aos templários, que foram expulsos da região na época. Em 1500, Nostradamus escreveu sobre a boa reputação do vinho de Châteauneuf-du-Pape, que era exportado na época pra Itália. O vilarejo contava então com cerca de mil habitantes, e cinco séculos mais tarde a população local pouco mais que duplicou. Sim, somente cerca de 2200 habitantes vivem na terra do vinho provençal de maior reputação.




Nosso retorno à cidade aconteceu numa época quente, luminosa, bem diferente da primeira visita há cerca de três anos, num dia cinzento e de baixas temperaturas. O motivo da nossa ida foi a Festa da Véraison, uma festa medieval que acontece todos os anos, no primeiro fim de semana de agosto, e é uma verdade viagem no tempo. A "véraison" é o momento em que a uva muda de tonalidade, perdendo a cor verde e ganhando o colorido do vermelho e do roxo, que indicam que a colheita se aproxima (geralmente em meados de setembro). Nós chegamos na cidade por volta de 13h de domingo e fomos direto às ruínas do castelo, onde fizemos nosso piquenique apreciando a paisagem cortada pelo rio Ródano. Acabamos indo no último dia da festa pois na véspera havia previsão de chuva de verão, e preferimos adiar para o dia seguinte, uma escolha acertada. Depois do almoço, percorremos as ruas da cidade e aprendemos muito sobre a produção local e cultura do vinho.

O rio Rhône (Ródano em português) e o vilarejo vistos do castelo


13 tipos diferentes de uvas compõem os vinhos que possuem a denominação de origem controlada (AOC, em francês) Châteauneuf-du-Pape, sendo que as 4 principais são grenache, shiraz, mourvèdre, cinsault. O controle rigoroso estabelecido em 1937, quando foi adotado o selo de denominação de origem controlada na região (criado em Cassis), vai desde a área cultivada, passando pela triagem das uvas durante a colheita e a quantidade de vinho produzido. Além disso, o solo também desempenha um papel importante, e na região é comum a presença de solo arenoso e argiloso, pedras calcáreas e redondas. O clima é outro fator crucial, e o mistral é essencial para garantir o sabor dos vinhos: o vento forte e seco que nasce nos Alpes e ganha força seguindo o curso do rio Ródano confere às uvas cultivadas na região um aspecto bastante peculiar, além do sol abundante e das temperaturas generosas durante o verão - termômetro na região pode chegar aos 38°!




E o que acontece exatamente durante esta festa? O vilarejo de Châteauneuf ganha ares medievais: barracas de produtos artesanais são instaladas ao longo das ruelas, animações típicas como combates, duelos e demonstrações à cavalo divertem os presentes, e o principal produto da cidade é ganha destaque: os produtores abrem as caves e propõem seus produtos à degustação, tudo isso pela módica soma de 3,50€, valor da taça vendida como passaporte do vinho.

A festa, que este ano chegou em sua 30a edição, reúne cerca de 30 mil visitantes ao longo de 2 dias e meio de celebrações, além de um desfile introdutório que acontece dois dias antes em Avignon. Os produtos regionais são expostos com orgulho por seus produtores: os saborosos melões da região de Vaucluse, os queijos provençais à base de leite de ovelha e cabra, os deliciosos nougats da região de Montélimar, azeites e, claro, os vinhos Côtes du Rhône e Châteauneuf-du-Pape, uma excelente oportunidade para trocar ideias com os expositores e aprender algumas dicas importantes, além de descobrir outros vinhos que são excelentes para o consumo no verão, como os rosés ou brancos, bastante saborosos e perfumados. Eu aprendi, por exemplo, que um ensopado provençal de carne bovina ou uma boa costela grelhada harmonizam bem com o tinto da região.

Quase no fim do dia, pouco antes do pôr do sol, hesitamos em partir, chegamos a ir ao carro - o que me rendeu umas boas fotos do sol baixando perto do castelo - mas acabamos decidindo ficar para assistir ao encerramento da festa, e fomos jantar num dos restaurantes da cidade. Em ocasiões festivas, é comum os restaurantes optarem por um menu único especial, e foi o caso no dia, o que facilitou bastante a nossa escolha e encurta relativamente o tempo de serviço, nos deixando livres para os compromissos festivos que começaram enquanto degustávamos nossa sobremesa: um desfile de cavaleiros da ordem de São João de Malta desceu a rua principal - justo onde fica o restaurante onde jantamos - carregando tochas acesas e rufando tambores. Sem hesitar, um pequeno cortejo se formou e começou a seguir os cavaleiros, e nos juntamos à pequena multidão, até que chegamos no estádio da cidade. Assistimos apenas o início da cerimônia, quando algumas crianças foram sagradas cavaleiros da ordem de São João de Malta, e pegamos estrada de volta pra casa.


Dicas para organizar sua visita à Châteauneuf-du-Pape

Como chegar: Localizada a 90km de Aix-en-Provence, 20km de Avignon e a 10km de Orange, Châteauneuf-du-Pape é facilmente acessível de carro, pela autoestrada que liga Aix e Lyon, e o trem de Paris chega em 3 horinhas à Avignon. Pesquisei os ônibus mas eles funcionam em horários que favorecem o pessoal que mora em Châteauneuf e trabalha em Orange ou Avignon, então o ideal é alugar um carro ou fazer a corrida de táxi.



Onde se hospedar: Avignon é a melhor cidade-base para percorrer a Rota do Vinho de Châteauneuf-du-Pape. Além da proximidade com o vilarejo e a presença da estação TGV onde chega o trem de Paris ou Aix-en-Provence (pra quem chega direto no Aeroporto Marseille Provence), a cidade tem uma boa estrutura hoteleira e opções de restaurantes com preços mais abordáveis que Aix-en-Provence. Veja a lista de *hoteis em Avignon*. Quem prefere o charme dos pequenos vilarejos, mas não dispensa a proximidade com cidades mais movimentadas à noite, como é o caso de Avignon, as cinco cidades que compõem o território da denominação de origem controlada de Châteauneuf-du-Pape também oferecem opções de hospedagem, e você pode escolher entre se hospedar em *Châteauneuf-du-Pape*, *Courthézon*, *Bédarrides*, *Orange* ou *Sorgues*.

*As reservas feitas através dos links usando o site do Booking.com geram comissão e você não paga nada a mais por isso, mas ajuda na manutenção do blog! As dicas daqui ajudaram no planejamento da sua viagem pela Provença? Então reserve por aqui sua hospedagem!*

Sobre as visitas às caves e degustações de vinhos em outras época:

O Centro de Turismo de Châteauneuf du Pape organiza visitas guiadas com degustação às caves da cidade, no valor de 5€. A reserva deve ser feita no local, informações por telefone +33 4 90 83 71 08 (se ligar da França, substitua o +33 pelo 0).



3 comentários:

  1. Estou há tempos para ir nessa região Natália, e a cada post me convenço mais que preciso ir! Apesar de ter morado na França por 4 anos só conheço Marseille na região PACA e felizmente um pouco mais do Languedoc-Roussillon, PRECISO voltar e passar novamente pela região, beijo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ei Paula!
      Marseille ja é um belo começo, a cidade é bem interessante, acho que tem atrações bem bacanas e é muito animada! Espero que você possa voltar em breve pra conhecer mais da região, que é surpreendente!

      Excluir
  2. Natalia, parabéns pelo seu blog! Com os seus artigos, sonho com as maravilhas da Provence.
    Próximo ano, irei à Provence, mas não dirijo. Com o seguinte roteiro, posso fazer de trem ou ônibus?
    AVIGNON - 03/04 a 07/04/2018 (bate e volta em Les Baux de Provence e Chateauneuf du Pepe)

    SAINT REMY - 07/04 a 09/04

    Arles – 09/04 a 10/04

    Aix-en-Provence – 10/04 a 13/04

    Marseille – 13/04 a 15/04.

    ResponderExcluir

QUERIDOS LEITORES

Os comentários estão provisoriamente fechados pois trabalhamos na migração do blog. Por favor, envie sua pergunta para contato@destinoprovence.com

Agradeço a compreensão.

Natalia Itabayana

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.