23 de out de 2012

Arles e o legado romano na Provença



Sabe quando um lugar é perto e você se diz sempre que pode ir qualquer dia conhecer, mas acaba deixando pra depois, e depois... É meu caso com Arles, que fica a 75km de Aix-en-Provence, ou menos de uma hora de carro pela autoestrada. Sempre que eu pensava em visitar a cidade acabava que surgia alguma coisa pra fazer, e Arles era procrastinada a cada tentativa de visita, falha que foi devidamente remediada graças à presença de visita em casa. O plano inicial era irmos pela manhã à Saintes-Maries-de-la-Mer, e depois de uma voltinha pela cidade iríamos à Arles, já que um é do lado da outra. Acontece que o sono nos privou da primeira parte do passeio (e o dia nublado também não inspirou muito a nos levar à beira-mar) e acabamos seguindo direto pra Arles.



Saindo de Aix-en-Provence existem duas opções de trajeto: auto-estrada A8 até Salon-de-Provence, e A54 até Saint-Martin-de-Crau (pedágio: 4,20€), que vira N113 até Arles, trajeto que tem cerca de 75km dependendo do ponto de partida, ou então seguir a A7 em direção à Marseille, pegar a A55 Fos-Martigues e seguir pela N568 a partir de Martigues até Arles, trajeto com 92km mas que passa pela belíssima planície da Camargue, região do delta do rio Ródano, segundo maior do mediterrâneo, conhecida pela presença de cavalos selvagens, touros, sal e plantações de arroz, além de ter sua área natural protegida Parque Natural Regional da Camargue, que abriga diversas espécies de passáros no parque ornitológico. Nas proximidades de Fos-sur-Mer, à direita no sentido Fos-Arles, é possível ver alguns flamingos! Nós optamos pelo segundo itinerário porque gostamos da paisagem que podemos ver quando atravessamos a Camargue, a imensa planície de um lado, a cadeia dos Alpilles de outro, com o vilarejo de Les Baux-de-Provence tímido no alto de sua colina ao longe, visão da qual somos privados quando optamos pelo itinerário que segue somente pela auto-estrada, primeiro porque o percurso não é necessariamente o mesmo, segundo porque temos a tendência a ir mais rápido (130km/h contra 110km/h na nacional) e eu, quando dirijo, vejo mais asfalto que paisagem na auto-estrada, enquanto na nacional a paisagem predomina. Chegando em Arles pega a saída que indica "Arles Centre" e siga as indicações até encontrar um estacionamento, não muito longe do escritório de informações turísticas. Estacione e venha comigo passear no coração dessa cidade onde os estilos provençal e romano coabitam harmoniosamente...

Vale à pena visitar Arles? Minha resposta é sim, vale. A cidade é classificada como de "Arte e História", e seus monumentos foram inscritos no patrimônio mundial da humanidade pela Unesco desde 1981. Principal cidade da região da Camargue, Arles fica às margens do rio Ródano, que nasce na Suíça e chega na França passando pelo lago de Genebra, desce por Lyon até desembocar no mediterrâneo, por isso o departamento onde moramos levar o nome de "Bouches-du-Rhône", literalmente Desembocaduras do Ródano, e essa localização geográfica da cidade entre a Espanha e a Itália, além da navegabilidade do Ródano fizeram de Arles um ponto estratégico durante o império romano. Em pouco tempo é possível visitar o Anfiteatro romano no estilo do Coliseu, também conhecido como Arenas por serem palco das controversas "corridas" - o sul da França, principalmente Nîmes, Saintes-Maries-de-la-Mer e Arles mantêm a tradição de corridas de touro - e logo ao lado fica o Teatro Antigo. Não muito longe dos dois monumentos mais conhecidos da cidade fica a Praça da Prefeitura (Hôtel de Ville), que tem uma particularidade: a torre do relógio não é como vemos nas demais cidades da França, sendo aqui uma referência ao templo de Marte, o deus da guerra, que é representado no alto do monumento segurando a bandeira francesa. Nos privamos da entrada nesses monumentos porque nosso tempo era muito curto (desculpa pra voltar!) e seguimos para o Museu Departamental de Arles Antiga, localizado a 1,5km do centro da cidade.

Algumas curiosidades sobre Arles

- é o município com maior superfície da França, são quase 760km² - Paris tem superfície de 105km²;
- recebe todos os anos o maior encontro de fotografia do país, "Les Rencontres Photographiques d'Arles", e onde fica também a Ecole Nationale Supérieure de la Photographie, o que lhe conferiu o título de capital francesa da fotografia;
- Vincent Van Gogh morou durante um ano na cidade e o incidente da orelha cortada (que deu origem a diversas teorias) aconteceu por lá.

Arena e anfiteatro romanos. Abaixo à esquerda, praça da prefeitura.

Fachada do Museu: modernidade para abrigar a antiguidade

Museu Departamental de Arles Antiga

O edifício que abriga a antiguidade arlesiana é bem moderno e encontra-se à margem do rio Ródano, de onde muitas das peças ali expostas foram retiradas - um hábito antigo, algo se quebrava, as pessoas jogavam no rio. Logo na parte externa em frente ao museu podemos perceber a riqueza encontrada na região: o sítio arqueológico foi integrado à construção, onde podemos ver peças de uso doméstico como pratos, jarras, copos quebrados que tiveram como destino o fundo do rio e de lá foram resgatadas por mergulhadores, trabalho importante que foi representado em maquete. Vestígios da arquitetura antiga, como colunas e mosaicos também fazem parte do acervo e o trabalho de restauração é constante. Um novo pavilhão está sendo construído para abrigar o acervo de navegação, e o testemunho histórico de como funcionava a economia, a indústria e até a medicina da época chega até nós através das peças expostas no museu. Uma parte interessante do ponto de vista do surgimento do cristianismo é comparar as representações presentes nos sarcófagos, indo de nenhuma representação aos símbolos cristãos, passando por representações que davam indícios somente aos cristão da época, até chegar nas representações claras de Jesus com os apóstolos. Como sabiamente apontou Victor Hugo, quando não podíamos imprimir nossa história pra contar em larga escala, o fizemos através da arquitetura e escultura. 

Informações práticas sobre o museu:
- fechado às terças-feiras e nos dias 01/01, 01/05, 01/11 e 25/12. Entrada gratuita todo primeiro domingo do mês. Bilhete adulto 6€, tarifa reduzida 4,50€. Horário de funcionamento: 10h às 18h.

Estátua de Augusto

Réplica da Venus d'Arles: a original, restaurada a pedido de Louis XIV, encontra-se no Louvre

No alto à esquerda, um pouco da indústria da época. A direita, maquete de ponto sobre o Ródano. Abaixo à esquerda, os vasos que os romanos utilizavam para transportar vinho e azeite, e à direita uma geral do museu com os mosaicos no chão





13 comentários:

  1. Oi Natalia! Conheço bem essa coisas de deixar pra depois, e depois... :) importante é irmos cedo ou tarde! E ainda bem que você foi e compartilhou tudo aqui, achei muito legal! A Europa é tão rica de história e temos mesmo que aproveitar tudo!
    Paz! Michel

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    1. Michel, eu digo que tenho a sorte de morar num livro de história! Gostei tanto da cidade que estou planejando novas escapadas pra conhecer melhor, ainda tem muito o que ver por la!
      Obrigada pela visita!

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  2. Natalia,
    Muito bacana ver a cidade com seus olhos e suas lentes. E a vontade de voltar para Aix e explorar o que falta só aumenta... Beijos.

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    1. Clinha, é tanto lugar que quero conhecer nos arredores e tanta coisa pra descobrir que às vezes acho que falta fim de semana, mas vou com calma :)
      Espero que voltem em breve pra explorar mais!
      Beijos!

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  3. Oi, Nati. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia Paulista

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    1. Brigadinha pelo presente de aniversario antecipado, Natalie :)

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  4. Querida Natalia, que bom saber de sua visita a Arles.
    Mais uma vez tenho que destacar que gosto muito das suas postagens, enquanto leio sobre as suas viagens a sensação que eu tenho é que estamos conversando tranquilamente numa praça de Marseille, numa rua de Aix,num bristrô em Paris. Uma pessoa querida compartilhando com os amigos as suas experiências nesse "mundão de Deus".
    bjs!!!

    Leonor

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    1. Que bom que consigo fazer você viajar lendo o blog, Leonor!

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  5. Oi Natalia,

    Quanta foto linda no seu post! Fiquei com muita vontade de conhecer a capital francesa da fotografia! Amo fotografia! :)

    Abraços,
    Lillian.

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    1. Ei Lilian, que honra receber elogios fotograficos seus!! Olha, se puder visitar Arles programe a vinda pra época do festival, entre julho e setembro, a programação é super bacana e tem inclusive estagios, pretendo ir ano que vem e tentar participar de pelo menos um, aprender nunca é demais, né?
      Obrigada pela visita!!
      Abraços!

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  6. Oi, tudo bem? Vamos pra Aix en Provence em Julho e gostaria de saber algumas coisas: como se paga o pedágio? Há cobradores ou é self service? em julho é uma boa alugarmos um carro? Há facilidade para encontrar estacionamento? Agradeceria muito se nos ajudasse.

    Obrigada,

    Carina

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    1. Oi Carina!
      Nas cabines de pedágio você tem as duas opções durante o dia, o auto atendimento com cartão de crédito ou dinheiro, e a cabine com os atendentes, ambas sinalizadas (símbolo de CB - carta bancária, e um homenzinho pro atendente). Acho válido alugarem um carro em julho, o aluguel pode ser feito nas agências no Aeroporto Marseille Provence - lembro da Hertz e Europcar - e recomendo terem a carteira de habilitação internacional.
      Se tiver mais dúvidas você pode ler o post sobre Dirigir na França, o primeiro da listinha de posts mais lidos, que tem informações sobre os pedágio e dicas sobre a sinalização, ou entrar em contato via email.
      Abraços!

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    2. Muito obrigada. Valeu mesmo!

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