1 de jul de 2017

Canadá, nosso roteiro de duas semanas

Vinte e sete de abril de dois mil e dezessete. O despertador toca antes das seis da manhã, mas eu já estava acordada. Tudo havia sido preparado nos dias que precederam esse momento. Nos restava tomar banho, nos vestir, comer e sair pro aeroporto. No caminho, enfrentaríamos uma pequena redução na velocidade da viagem em função de obras, mas isso já estava previsto, então incluimos a antecedência no momento de sair. Mas sempre tem contratempos de última hora, principalmente quando se viaja com bebê. Mas chegamos no aeroporto a tempo e, apesar de não conseguir fazer o check-in online, o que me preocupou um pouco, nos dirigimos ao guichê. E começou ali meu pior pesadelo de viajante...

Porteau Cove Provincial Park
"A senhora não pode embarcar. O sistema não encontra autorização de viagem para este passaporte, não posso emitir seu bilhete." Perdi as palavras. Perdi o chão. "Seu marido e seu filho podem embarcar, mas a senhora não". Foram meses planejando essa viagem, pesquisando, gestando um sonho, embalado por espectativas de encontros e reencontros. Era nossa primeira visita ao Canadá. Pouco tempo antes, eles haviam implantado o sistema de autorização eletrônica de viagem para cidadãos europeus – foi assim que aplicamos – e estava tudo certo. Era só preencher tudo, comprar as passagens e embarcar. Foi isso que fiz. Só que o embarque não aconteceu.

"Madame, seu filho e seu marido estão ok, a senhora não pode embarcar." Eu estava num transe. Não acreditava que era eu, que aquilo estava acontecendo comigo. "Vai, eu dou meu jeito e encontro vocês lá. Toda a comida que o bebê precisa está aí, tem brinquedo, pra entreter durante o voo. Vai encontrar seu irmão. Faz dois anos que vocês não se abraçam. Eu chego logo."

Ele se recusou a me deixar sozinha na França. Insisti, em vão. Insisti em todos os guichês, os funcionários se solidarizaram e se condoeram da situação. "Faça outra solicitação de autorização no computador logo ali, madame!" "Podemos embarca-los até a conexão e ela terá a resposta ao chegar lá!" "Não", respondeu a supervisora. Na minha cabeça, eu só repetia o mantra vai dar certo, vocês vão pro Canadá. Perdemos nosso primeiro voo. Perdemos a conexão pra Vancouver que sairia de Amsterdam. Eu tinha preenchido a autorização de viagem novamente, em caráter de urgência. Quarenta minutos depois recebi a aprovação. E só então, eu sentei e as lágrimas rolaram pelo meu rosto. 

Foi um erro no preenchimento do formulário online. Um erro meu. E que não fez o sistema canadense acusar incompatibilidade de dados. Que não fez com que minha autorização de viagem fosse negada, mas impediu meu embarque porque os dados do sistema da imigração e do sistema da companhia aérea não conferiam. Nos fez adiar por vinte e quatro horas o encontro entre o Vic e seu tio, tão esperado desde que havíamos planejado comemorar seu primeiro aniversário no Canadá, e tivemos de mudar de planos, indo pra Sicília – sem reclamar, claro, foi uma viagem deliciosa.

Me senti péssima. Mas o que manteve meu moral um tico mais elevado que o fundo do poço foi pensar que a grana que pagamos a mais pra embarcar no voo seguinte não foi gasta com doença de ninguém. Estávamos saudáveis, inteiros, e juntos. E o bebê nem resmungou de ter que pernoitar nos arredores do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, ao invés de dar um abraço no tio no mesmo dia vinte e sete de abril de dois mil e dezessete.
Stanley Park, Vancouver
O abraço aconteceu. Não apenas o tio, mas também os avós paternos estavam no aeroporto, pois tinham chegado horas antes do nosso voo. Pra compensar um tico do perrengue, fomos poupados da taxa de inspeção veterinária cobrada quando levamos animais ao Canadá – Luna foi com a gente, e ficou quieta o voo inteiro, como de costume. Meu nível de tensão só diminuiu quando atravessei a porta que separa os serviços de imigração do saguão de chegada. Vimos rostos familiares. Estávamos em casa.

Ficamos no Canadá no período de 28 de abril a 11 de maio, quando embarcamos de volta pra França. Durante esse tempo, nosso roteiro foi relativamente folgado, sem uma infinidade de destinos, pois o objetivo principal eram os encontros. Chegamos em Vancouver no fim da manhã e ficamos na cidade por cinco noites. Em seguida, fomos para Whistler, percorrendo a estrada considerada uma das mais belas do Canadá. Queixos cairam ao longo de quilômetros. E continuaram caídos à medida que a gôndola que encontramos no caminho nos levava morro acima : uma parada na Sea to Sky Gondola é imprescindível.

Sea to Sky Gondola
Ficamos duas noites em Whistler, e eu só conheci a cidade da janela do carro, pois fiquei péssima de sinusite e dor de ouvido no dia seguinte – ainda bem, pois só choveu. No segundo dia, o plano era fazer a trilha até o Lago Garibaldi e depois voltar para Vancouver. Começamos a trilha, sem preparo algum : nenhum lanche, nada de água, sapatos inapropriados pra quase todo mundo – só eu tinha bota de trilha. Ao nos depararmos com uma grande extensão de placas de gelo após 2km de caminhada, decidimos voltar. Sem falar no medo de encontrar um urso pardo despertando da sua hibernação – um amigo depois nos consolou dizendo que tomamos a decisão mais acertada, pois realmente a chance de encontrarmos ursos pardos ali era grande, e que o melhor período para fazer a trilha é no verão.

Passamos uma noite em Vancouver, e no dia seguinte rumamos para Victoria. Mas batemos o carro no caminho. Caramba, quando perrengue ! Descem do carro Bernardo e meu cunhado, e a motorista do carro batido. Olham, verificam. Ela dá de ombros. Nenhum dano. Nada. Vida que segue. Ufa ! Ao menos não perderíamos o ferry pra Victoria. Passamos uma noite da capital da província de British Columbia. Muitos fazem bate-volta saindo de Vancouver, inclusive é possível ir de hidroavião e voltar de ferry. Optei pelo pernoite, porque ficaria cansativo com o bebê (não por ele, mas por nós mesmos).

Victoria

Victoria

Butchart Garden, Victoria
Durante seis anos trabalhei como professora de inglês. Nunca fiz intercâmbio. Só visitei um país anglofone anos depois de ter mudado de profissão. Mas durante esses anos, aprendi sobre Victoria e a província de British Columbia, pois era uma parte do livro do curso que deveria ensinar aos alunos. Me emocionei quando finalmente me vi diante daqueles lugares que até então só me eram familiares em livros. 

Por fim, voltamos à Vancouver, mas nos hospedamos numa bela casa de 1920 em North Vancouver. Foi uma maneira deliciosa de encerrar nossas primeiras férias no Canadá. E voltar pra casa com um desejo enorme de voltar, depois de uma despedida emocionante. Foram dois anos sem ver meu cunhado, que só tinha conhecido o bebê na minha barriga, quando fomos à Nova Iorque, e visto foto ou pelo skype. Espero que o próximo encontro não tarde tanto a acontecer, porque ele adorou o tio que mora no Grande Norte.

Sea to Sky Gondola

Um comentário:

  1. "Caramba, quando perrengue" meeeemo. Mas com certeza as lembranças que ficarão dessa viagem serão lindas.

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