Canadá com bebê, nosso roteiro de duas semanas

Vinte e sete de abril de dois mil e dezessete. O despertador toca antes das seis da manhã, mas eu já estava acordada. Tudo havia sido preparado nos dias que precederam esse momento. Nos restava tomar banho, nos vestir, comer e sair pro aeroporto. No caminho, enfrentaríamos uma pequena redução na velocidade da viagem em função de obras, mas isso já estava previsto, então incluimos a antecedência no momento de sair. Mas sempre tem contratempos de última hora, principalmente quando se viaja para longe, nosso caso, que fomos pro Canadá com bebê e cachorro. Eu estava preocupada por não ter conseguido fazer o checkin online. Mas chegamos no aeroporto a tempo e nos dirigimos ao guichê. E começou ali meu pior pesadelo de viajante

Porteau Cove Provincial Park

Meu maior perrengue de viagem

“A senhora não pode embarcar. O sistema não encontra autorização de viagem para este passaporte, não posso emitir seu bilhete.” Perdi as palavras. Perdi o chão. “Seu marido e seu filho podem embarcar, mas a senhora não”. Foram meses planejando essa viagem, pesquisando, gestando um sonho, embalado por espectativas de encontros e reencontros. Era nossa primeira visita ao país, primeira vez no Canadá com bebê e cachorro. Pouco tempo antes, eles haviam implantado o sistema de autorização eletrônica de viagem para cidadãos europeus – foi assim que aplicamos – e estava tudo certo. Era só preencher tudo, comprar as passagens e embarcar. Foi isso que fiz. Só que o embarque não aconteceu.

“Madame, seu filho e seu marido estão ok, mas a senhora não pode embarcar.” Eu estava num transe. Não acreditava que era eu, que aquilo estava acontecendo comigo. “Vai, eu dou meu jeito e encontro vocês lá. Toda a comida que o bebê precisa está aí, tem brinquedo pra entreter durante o voo. Vai encontrar seu irmão. Faz dois anos que vocês não se abraçam. Eu chego logo.”

Ele se recusou a me deixar sozinha na França. Acho que ele não se via chegar sozinho no Canadá com bebê (Luna iria comigo). Insisti, em vão. Insisti em todos os guichês, os funcionários se solidarizaram e se condoeram da situação. “Faça outra solicitação de autorização no computador logo ali, madame!” “Podemos embarca-los até a conexão e ela terá a resposta ao chegar lá!” “Não”, respondeu a supervisora. Na minha cabeça, eu só repetia o mantra vai dar certo, vocês vão pro Canadá. Perdemos nosso primeiro voo. Perdemos a conexão pra Vancouver que sairia de Amsterdam. Eu tinha preenchido a autorização de viagem novamente, em caráter de urgência. Quarenta minutos depois recebi a aprovação. E só então, eu sentei e as lágrimas rolaram pelo meu rosto.

Autorização eletrônica de viagem: todo cuidado é pouco!

Foi um erro no preenchimento do formulário online. Um erro meu. Erro que o sistema canadense não detectou. Que não fez com que minha autorização de viagem fosse negada, mas impediu meu embarque. Os dados do sistema da imigração e do sistema da companhia aérea não conferiam. Nos fez adiar por vinte e quatro horas o encontro entre o Vic e seu tio, tão esperado. Havíamos planejado comemorar seu primeiro aniversário no Canadá, mas tivemos de mudar de planos, indo pra Sicília – sem reclamar, claro, foi uma viagem deliciosa.

Me senti péssima. Mas o que manteve meu moral um tico mais elevado que o fundo do poço foi pensar que a grana que pagamos a mais pra embarcar no voo seguinte não foi gasta com doença de ninguém. Estávamos saudáveis, inteiros, e juntos. E o bebê nem resmungou de ter que pernoitar nos arredores do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, ao invés de dar um abraço no tio no mesmo dia vinte e sete de abril de dois mil e dezessete.

Stanley Park, Vancouver

 

Finalmente em solo canadense

O abraço aconteceu. Não apenas o tio, mas também os avós paternos estavam no aeroporto, pois tinham chegado horas antes do nosso voo. Pra compensar um tico do perrengue, fomos poupados da taxa de inspeção veterinária cobrada quando levamos animais ao Canadá – Luna foi com a gente, e ficou quieta o voo inteiro, como de costume. Meu nível de tensão só diminuiu quando atravessei a porta que separa os serviços de imigração do saguão de chegada. Vimos rostos familiares. Estávamos em casa.

Ficamos no Canadá no período de 28 de abril a 11 de maio, quando embarcamos de volta pra França. Durante esse tempo, nosso roteiro foi relativamente folgado, sem uma infinidade de destinos, pois o objetivo principal eram os encontros. Chegamos em Vancouver no fim da manhã e ficamos na cidade por cinco noites. Em seguida, fomos para Whistler, percorrendo Sea to Sky Highway, considerada uma das mais belas estradas do Canadá. Queixos cairam ao longo de quilômetros. E continuaram caídos à medida que a gôndola que encontramos no caminho nos levava morro acima : uma parada na Sea to Sky Gondola é imprescindível (valeu Camila pelos snaps inspiradores).

Sea to Sky Gondola

 

Conhecendo o oeste do Canadá com bebê

Ficamos duas noites em Whistler, e eu só conheci a cidade da janela do carro, pois fiquei péssima de sinusite e dor de ouvido no dia seguinte – ainda bem, pois só choveu. No segundo dia, o plano era fazer a trilha até o Lago Garibaldi e depois voltar para Vancouver. Começamos a trilha, sem preparo algum : nenhum lanche, nada de água, sapatos inapropriados pra quase todo mundo – só eu tinha bota de trilha. Ao nos depararmos com uma grande extensão de placas de gelo após 2km de caminhada, decidimos voltar. Sem falar no medo de encontrar um urso pardo despertando da hibernação – um amigo depois nos consolou dizendo que tomamos a decisão mais acertada. A chance de encontrarmos ursos pardos ali era grande, o melhor período para fazer essas trilhas no Canadá com bebê é no verão.

Passamos uma noite em Vancouver, e no dia seguinte rumamos para Victoria. Mas batemos o carro que alugamos no caminho. Descem do carro Bernardo e meu cunhado, e a motorista do carro batido. Olham, verificam. Ela dá de ombros. Nenhum dano. Nada. Vida que segue. Ufa ! Ao menos não perderíamos o ferry pra Victoria. Caramba, quanto perrengue numa mesma viagem! Felizmente viajamos pro Canadá com bebê tranquilos, pois contratamos um seguro de saúde pra viagem.

Passamos uma noite em Victoria, capital da província de British Columbia. Muitos fazem bate-volta saindo de Vancouver, inclusive é possível ir de hidroavião e voltar de ferry, como a Mirella contou sobre o passeio que fez até lá. Optei pelo pernoite, porque ficaria cansativo com o bebê (não por ele, mas por nós mesmos). Além disso, pudemos visitar o encantador Butchart Gardens, os jardins mais lindos que já visitei até hoje (conheço Giverny e Keukenhof).

Luna atraiu muitos olhares em Victoria
Canadá com bebê e cachorro
Victoria
Canadá com bebê
Butchart Garden, Victoria

 

Realizando sonhos

Durante seis anos trabalhei como professora de inglês. Nunca fiz intercâmbio. Só visitei um país anglofone anos depois de ter mudado de profissão. Mas durante esses anos, aprendi sobre Victoria e a província de British Columbia, pois era uma parte do livro do curso que deveria ensinar aos alunos. Me emocionei quando finalmente me vi diante daqueles lugares que até então só me eram familiares em livros.

Por fim, voltamos à Vancouver, mas nos hospedamos numa bela casa de 1920 em North Vancouver. Foi uma maneira deliciosa de encerrar nossas primeiras férias no Canadá com bebê. E voltar pra casa com um desejo enorme de voltar, depois de uma despedida emocionante. Foram dois anos sem ver meu cunhado, que só tinha conhecido o bebê na minha barriga, quando fomos à Nova Iorque, e visto foto ou pelo skype. Espero que o próximo encontro não tarde tanto a acontecer, porque ele adorou o tio que mora no Grande Norte. E pra gente foi um prazer imenso conhecer esse canto maravilhoso do Canadá com bebê e Luna.

Seq to Sky Gondola
Sea to Sky Gondola

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