Flamingos na Provence: visitando o Parque Ornitológico de Pont de Gau

postado em: Provença | 0

Quarta feira, 28 de novembro, um dia relativamente ensolarado de fim de outono. Um dia em que o Vic não tem escola. As escolas francesas fazem uma pausa no meio da semana, pra que os alunos possam descansar e ter tempo para atividades extra-escolares, já que as aulas são em tempo integral. Quartas feiras são nosso dia de passeio, biblioteca, parque. E fazia tempos que eu queria visitar um parque na Camargue, a região da Provença que fica no delta do rio Rhône. Um parque natural, dedicado às aves da região: o parque ornitológico de Pont de Gau.

Camargue, região do delta do Ródano

Desde que visitei Saintes-Maries-de-la-Mer pela primeira vez e vi a entrada do parque nasceu em mim a curiosidade de visitar o local. Este ano, durante um estágio de fotografia, passei um dia inteiro dedicado à fotografar aves da região conhecida como Petite Camargue, a Pequena Camargue, nos arredores do lago de Berre, próximo de onde fica o aeroporto Marseille Provence. E ao longo desse dia pude contemplar cisnes, patos, e flamingos, o majestoso símbolo alado da Provence.

Durante meses trabalhei na metade do caminho entre Aix-en-Provence e o parque, me dizendo com frequência que não dava mais pra adiar a visita. Pesquisei sobre os flamingos no site do parque e vi que a época ideal para avista-los é durante o período de novembro até março. Mas esta era uma visita que eu não poderia fazer sozinha, de maneira alguma. Esperei uma quarta-feira pra ir com o Vic, e propus o passeio a uma amiga que mora há muito anos na região, mas que nunca tinha tido oportunidade de ir ao parque.flamingos na provence

Coruja no viveiro do parque
Rato d’água, parente do castor

Parque Ornitológico de Pont de Gau

E quando nos encontramos todos devidamente agasalhados e animados para o passeio, embarcamos na viagem que durou pouco mais de 1 hora e 15 minutos até a entrada do parque, não sem nos maravilharmos com os animais vistos ao longo da planície da Camargue: touros, cavalos, cisnes, que pareciam meticulosamente posicionados para compor a paisagem local.

Mas esta é a realidade e especificidade daquela região: criações de cavalos e touros intercaladas com plantações de arroz numa planície a perder de vista, delimitada pelos Alpilles ao norte, com Les Baux-de-Provence, e o mediterrâneo ao sul. A terra fértil é resultado do trabalho das águas do Rhône, que inudaram a região e criaram lagoas propícias a instalação de fauna e flora variadas. Além das lagunas onde o sal da Camargue é extraído, parada obrigatória pros flamingos durante suas mudanças de domicílio.

Flamingos na Provence

A entrada do parque fica bem sinalizada na estrada que leva à Saintes-Maries-de-la-Mer, e o estacionamento gratuito é bem próximo da bilheteria. Existem dois itinerários de visita propostos que contabilizam 7km de percurso sinalizado, sendo que o itinerário da parte sul é inteiramente acessível à pessoas com mobilidade reduzida, o que foi o fator mais importante pra que nossa amiga pudesse nos acompanhar no passeio.

Quando a convidei, a principal preocupação dela era o fato de precisar ter sua cadeira de rodas empurrada ao longo de todo o percurso, já que ir com a cadeira motorizada era inviável por conta do veículo, e ela mesma não tem condições de se deslocar por longas distâncias sozinha na sua cadeira manual. Eu falei que não era problema algum, pelo contrário, e fazia questão da companhia dela nesse nosso passeio, que foi uma descoberta para nós três.

Os cerca de 1500 flamingos que fazem pouso no parque ornitólogico são da espécie europeia, conhecidos como grandes flamingos. No parque todos são identificados com pulseiras numeradas, o que possibilita aos estudiosos de traçar um perfil de comportamento, assim como acompanhar os movimentos migratórios das aves. Os flamingos vivem em média 40 anos, reproduzem-se no período do inverno (época ideal para visitar o parque, entre novembro e março) e colocam um ovo a cada ano. Ambos macho e fêmea se revezam para chocar o ovo.

Rituais de procriação

Durante nossa visita observamos comportamentos bem ritualizados nos flamingos, e fomos conversar com o pessoal do parque para ter mais informações. Os movimentos ritmados, abrir e fechar de asas, exibição de plumagem constituem parte do ritual de escolha de parceiros, uma vez que os flamingos não são facilmente distinguiveis entre macho e fêmea conforme sua plumagem – como é o caso do pato ou pavão, por exemplo, onde notamos a exuberância da plumagem dos machos diante da simplicidade da plumagem das fêmeas, a quem cabe a escolha do parceiro.

No caso dos flamingos as diferenças entre os sexos são perceptíveis aos olhos atentos e treinados, pois num grande grupo as características de ambos são bastante similares. Fêmeas podem ser maiores que os macho, sem ser uma regra, e a cor da plumagem é exatamente a mesma. O que torna um flamingo mais atraente como parceiro de reprodução é justamente a exuberância da cor da plumagem, e um dos movimentos do balé flamingo que mais achei interessante observar foi a exibição das asas, que acontece de suas formas: pescoço esticado para o alto, asas completamente abertas como que para alçar voo em 90°, ou pescoço inclinado para baixo, bico chega a tocar a superfície da água, e a plumagem externa das asas é exibida, asas esticadas para trás dobradas. Os tons de preto, vermelho e rosa vibrantes determinam o quão atrativo é um parceiro, dentre outros fatores.

Informações práticas:

Para aproveitar ao máximo o passeio junto aos flamingos na Provence, recomendo a visita na parte da tarde, pois o fim da tarde da Camargue é algo excepcional e poder apreciar o sol baixando numa planície de rica biodiversidade é um presente e tanto. Além disso, a possibilidade de sair do parque após o horário de fechamente da bilheteria é atrativo importante em se tratanto de apaixonados por fotografia, que tem liberdade para fotografar os movimentos dos pássaros no seu ritmo natural de vida, inclusive os momentos de revoada quando os flamingos mudam de lagunas ou procuram outro pouso para a noite.

Acredito que um mínimo de duas horas é um tempo justo para apreciar a caminhada dos 2.8km da parte sul com tranquilidade, é nela que se concentra a maior parte das aves. A parte norte do parque tem um itinerário de 4.3km entre lagunas e extensões de plantas aquáticas típicas da região, e vez ou outra uma ave faz uma aparição por esse lado. Se o tempo for curto, concentre-se na parte sul (direita no itinerário sinalizado após sair da bilheteria e passar pelo viveiro da cegonha).flamingos na provence

Há viveiros no parque, que são ocupados por animais que outrora viveram em cativeiro ou que foram encontrados feridos na natureza, mas que não podem ser devolvidos ao habitat natural por não conseguirem nele se adaptar sem prejuízo de suas vidas. Dentre os animais em cativeiro vemos três imensas corujas, dois gaviões e uma grande cegonha, localizada à esquerda algumas dezenas de metros após a entrada do parque.

O local conta com banheiros, mesas para piquenique e uma lanchonete que funciona durante o período estival. No restante do ano, vale levar um piquenique e água. Outro ponto importante é a presença de cabanas de observação dos pássaros, que nos deixa camuflados e nos permite observa-los sem incomoda-los.

Vale lembrar que somos nós os intrusos no ambiente das aves, por isso é importante observar discrição ao conversar durante a visita, assim como respeitar os animais. JAMAIS alimente vida selvagem.

Distância de Aix-en-Provence ao Parque Ornitológico: 110km

Distância de Arles ao Parque: 33km

Horário de funcionamento: aberto diariamente. Entre 1 de abril e 30 de setembro de 9h às 19h. Entre 1 de outubro e 31 de março de 10h às 18h. Bilheteria fecha meia hora antes do horário de encerramento. Saída independente da entrada, pode ser feita livremente até mais tarde.

Tarifas: 7,50€ (adultos), 5€ (crianças entre 4 e 12 anos). Pagamento apenas em dinheiro. Cartões não são aceitos.

Leia mais sobre a região da Camargue e arredores:

Arles e o legado romano na Provença

Saintes-Maries-de-la-Mer

As facetas de Saint-Rémy-de-Provence

Van Gogh e a clínica de Saint-Paul-de-Mausole

Deixe uma resposta